O Ring

Hitchcock gosta de criar cenas icônicas em seus filmes. Aqui temos uma mulher apaixonada ao lado do seu amor, quase nocauteado no ringue. Ele também gosta de comédia de situações, e esta é uma delas, onde até o título do filme é um trocadilho em inglês (“ring” pode ser anel ou o ringue de boxe). Este não é um dos seus filmes de crimes, mas um triângulo… um quadrado amoroso. E confuso. São personagens que dificilmente conseguimos lembrar por muito tempo. Parecidos entre si, não caem nos estereótipos e exageros do cinema mudo. O que torna tudo muito difícil de acompanhar.

A história começa em um parque de diversões, onde já vemos a destreza hitchcockiana em mesclar imagens (como de um homem rindo e um brinquedo onde deve-se acertar bolas dentro de uma face gigante. Uma das atrações é conseguir derrubar o “João Um Round”, ou um nome que o valha. O campeão ganha uma bolada. Há uma moça bonita na bilheteria, que já estima João como um amigo de infância. Há também um homem bem apessoado na multidão, mais alto que a média, junto de seu amigo. Ele flerta com ela, e aceita o desafio. Ganha. Isso muda o destino de todos envolvidos.

E por falar em destino, temos uma cigana/cartomante velha e baixinha e que fuma cachimbo como ninguém. Ela usa baralhos comuns para acertar a sorte da moça, e nele aparece o rei de copas. “Um homem alto e rico”, diz à ela. Porém, quem estará rico nesse futuro que ela almeja?

Hitchcock não quer saber de previsibilidades. Inventa mais um personagem lá no meio do filme, e cria situações apenas por criá-las. Vai “desenvolvendo” os três pretendentes em suas vidas, mas fica difícil entender o que o filme pretende. No final, uma luta magistral em um ringue muito maior, com um sino (“ring”) icônico.

A luta de boxe é um artifício enérgico e que sempre funciona no Cinema. Aqui não é diferente. Porém, qual o grande desafio a ser vencido? Dizem que uma luta de boxe no cinema nunca é sobre boxe. Aqui parece que sim. Isso estraga a magia e nos transporta para o mundo fácil das histórias divertidas de cartoon. O garotão ganha a mocinha. Ele perde-a novamente. Ela vai até o lado dele e com seu rosto angelical faz com que ele vença a luta. Fim. E espero que o fim de filmes como esse na carreira do diretor.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2017-01-17 imdb