O Segredo da Cabana

Há uma inversão de expectativas interessantíssima em O Segredo da Cabana, primeiro longa de Drew Goddard e escrito em parceria com Joss Whedon (sim, o cara dos Vingadores). Desde o começo (e por isso não conta como spoiler) enxergamos a velha história de terror e suspense dos jovens que vão passar o fim-de-semana em uma cabana na floresta como um ritual minuciosamente planejado por apáticos funcionários de uma organização aparentemente presente no mundo todo. O motivo? O mesmo que existe nesses filmes: aplacar a sede de vingança de espíritos, ou a força sobrenatural de zumbis, ou uma maldição fantasmagórica. Simplesmente escolha a sua.

O interessante da inversão que comentava é: como espectadores de filmes de terror, geralmente estamos acostumados com o desenrolar da mesma história contada milhares de vezes, e sequer prestamos atenção aos personagens que seguramente vão começar a morrer em questão de minutos. Aqui, não: esses jovens não são idiotas (como na maioria desses filmes) e não estão pedindo para serem mortos. Suas personalidades são alteradas quimicamente, os tornando vítimas antes mesmo de chegarem na famigerada cabana. Nesse sentido eles se tornam heróis que precisam desvendar a trama em que foram involuntariamente envolvidos antes de serem mortos por uma organização psicopata.

Contendo um personagem filosófico que analisa nos primeiros minutos do filme que nossa sociedade, ao escrever toda sua vida na internet através de blogues, tweets, postagens no Facebook e fotos, está cavando sua tumba definitivamente. Não estamos mais vivendo, apenas acompanhando nosso último processo de definhamento. O que se torna irônico justamente ao relembrarmos de tantos filmes de terror que serve apenas como uma escapatória da vida real por meio de uma história sempre patética onde há sangue para nossa diversão. E, vejam só, isso lembra exatamente os vilões supremos de O Segredo da Cabana!

Os efeitos digitais são bem ruinzinhos, e uma coisa ou outra na montagem o tenta tornar um trash involuntário. Porém, o conteúdo da narrativa compensa esses deslizes, pois nunca se torna enfadonho, sempre desdobrando suas possibilidades e se auto-analisando com metáforas divertidas e que fazem uma justa homenagem aos verdadeiros trashes, sendo a parte em que um velho “colaborador” tenta dizer suas falas ritualísticas enquanto é zombado pelos funcionários, que o escutam pelo viva-voz do telefone.

Apenas pecando em seu final por levar a história até o seu extremo sem necessidade (não esperávamos por isso), talvez por tentar forçar uma espécie final feliz onde ele não cabe, pelo menos possui a cereja do bolo orquestrada por uma Sigouney Weaver estranhamente gorda, mas, por ser a heroína definitiva da “quadrilogia” Alien, significativa em seu simbolismo final.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-11-28 imdb