O Silêncio da Noite É Que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras

Esta é uma antologia necessária do sertão nordestino. Há muito que repentistas ficam às margens dos “verdadeiros poetas”. Pois bem. Este documentário deve corrigir parte do desconhecimento geral de que a poesia de repente possui apenas rima e métrica. Esses são detalhes que reforçam a mensagem, mas é o espírito que importa. E neste filme há de monte. Começando pelo título, ele próprio um desafio ao repente.

Narrado pelos próprios repentistas, que contam em sua maioria das lendas que passaram pela região onde fica a cidade de Santo Antônio do Egito, a história e os causos de cada um vai aos poucos colorindo a paisagem onde vemos apenas pobreza nordestina. Começando em uma feira, palco de muitos repentistas, e passando casa a casa de nomes dessa arte, aos poucos o diretor D vai “povoando” a roda com mais e mais pessoas. É um almoço de domingo, um encontro casual ou até um evento maior. Lá estão eles, prontos para tirar de cabeça versos não apenas corretos, mas tirados do coração, com uma alma coletiva que vai sendo descoberta aos poucos, com cada pequena passagem.

O uso de diferentes ângulos, mas quase sempre do lado de uma mesa com álcool e uns petiscos serve também para sugerir o habitat natural desses artistas: o bar. Há também na paisagem degraus pintados com versos e lendas que ficam sendo contadas e recontadas até o ponto de se tornarem imortais. A sensação é que não é apesar da pobreza que eles existem, mas por causa dela. Como todo artista, o sofrimento, ou o uso das drogas, é o combustível para suas criações.

A maioria dos poetas é homem, mas há uma passagem ou outra de algumas mulheres, tão sofridas e tão geniais quanto. Há uma poeta maldita no meio deles que discursa sua arte profana e deliciosa a respeito de seus casos sexuais. Quase como uma versão sertaneja dos mutantes e astros do MPB, essas pessoas faziam o folclore da região se manter vivo. Daí a importância desse filme.

Porém, não espere muita lógica narrativa. Ela também vai surgindo, de improviso. É difícil saber quando o filme vai acabar, já que ele tem alguns falsos finais, com nomes surgindo a esmo e uma influência cinematográfica um pouco caótica – fruto desses artistas de esquerda avessos à razão, ainda que artística. De qualquer forma, o trabalho fica com a sensação de incompleto.

O que parece de longe uma coisa boa. Talvez esse seja o começo de uma antologia ainda maior, com mais regiões e mais artistas. Tomara. Já é tempo de sair da pseudo-arte urbana, que se finge de cult soando confusa. Aqui há métrica, aqui há postura, aqui há motivos de sua existência. O repente, espero, não morreu. Apenas vai mudando de formato.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-25