O Silêncio do Céu

Sep 13, 2016

Imagens

Marco Dutra, do ótimo Trabalhar Cansa, nos traz agora um drama com requintes de terror que apela para uma conexão social entre todos nós: o medo. E o medo, dessa vez, nem precisa ir ao sobrenatural buscar sua fonte. Ele está vivo e alerta dentro de cada um de nós.

A história envolve um casal, Mario e Diana, e um evento: o estupro de Diana. O que ocorre depois vai se desenvolvendo em uma trama de tortura psicológica em uma crescente fascinante representada pelos sons naturais que se ouve ao redor.

Sim, este é mais um filme que, como o ótimo Som Ao Redor, usa dos sons internos à história para montar sua trilha sonora. Isso graças às composições dos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato, que com sua tecnicidade apaixonante conseguem realizar um dos primeiros trabalhos da cinematografia brasileira onde o som não é um problema, mas uma virtude imensa.

Tudo isso, claro, aproveitado por dois ótimos atores. Se Carolina Dieckmann faz pouco na maior parte do tempo, suas cenas inicial e final fazem valer o filme pelo impacto que nos deixará pelo resto da vida. Já Leonardo Sbaraglia compõe o seu Mario de uma maneira compenetrada e que lembra um outro ótimo filme sobre investigação amadora: Para Minha Amada Morta. Porém, diferente do personagem de Fernando Alves no filme de Aly Muritiba, Sbaraglia não se contém em nenhum momento, e sua narrativa estabelece um sujeito com traços sociopatas, mas que passam despercebido graças à cena inicial protagonizada por Dieckmann. Ou seja, uma dupla e tanto!

É preciso notar também que a fotografia de Pedro Luque neste filme está assombrosa. O uso das sombras no cotidiano, mesmo que causada por árvores no parque, soa ameaçadora, mesmo com crianças brincando nesse parque. O uso do azul como um símbolo de pureza maculada, e uma tortura psicológica naquela casa, assim como os traços de vermelho para destoar de uma maneira mais bruta do conjunto remetem a obras-primas como A Lista de Schindler. Porém, não exatamente cafona como o filme de Spielberg, “O Silêncio” busca um tom poético e macabro nos símbolos que carrega.

Como uma pedra. Uma simples pedra, colocada por acidente no meio da casa, em cima de uma mesa, que pode ser vista como o centro das atenções (embora ninguém a note). Essa pedra é o retrato perfeito do que acontece logo após a primeira cena. Há algo de errado naquele lar, mas por algum motivo especial, ninguém se pronuncia. E é por isso que são importantíssimas as narrações em off dos dois personagens, que se confundem com seus pensamentos enquanto vagueiam pela vida sem muita perspectiva. Note como a narração começa em Diana, passa rapidamente por Mario (que toma conta do filme) e na cena final ouvimos novamente Diana. É uma rima belíssima e poderosa, dado os eventos que ocorrem em ambos os momentos.

O diretor Marco Dutra domina o suspense com elementos naturais da narrativa, mas também usa e abusa dos seus enquadramentos com cenários cheios de objetos, supercloses poderosos, e um controle do espaço e do tempo que não permitem que exista outra coisa a ser resolvida do que “a pedra no meio da casa”. Seu uso de luz e sombra combina com os símbolos trágicos por trás da história, muito embora eu não me atreva a tentar desvendá-los por completo.

Afinal de contas, O Silêncio do Céu não e uma história prontinha, com final feliz e tudo que todos gostam. Pelo contrário. É um filme com uma história simples, mas significados muito complexos. E por causa disso, talvez o grande público fique boiando e achando o final uma droga. Mas observe mais de perto. Mais perto. Dentro de si mesmo. O que você espera de uma história que começa com um estupro, à luz do dia, em sua própria casa?

Wanderley Caloni, 2016-09-13. O Silêncio do Céu. Era el Cielo (Brazil, 2016). Dirigido por Marco Dutra. Escrito por Sergio Bizzio, Sergio Bizzio, Caetano Gotardo, Lucía Puenzo. Com Leonardo Sbaraglia, Carolina Dieckmann, Chino Darín, Alvaro Armand Ugon, Mirella Pascual, Roberto Suárez, Paula Cohen, Dylan Cortes, Priscila Bellora. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.