O Silêncio do Céu

Marco Dutra, do ótimo Trabalhar Cansa, nos traz agora um drama com requintes de terror que apela para uma conexão social entre todos nós: o medo. E o medo, dessa vez, nem precisa ir ao sobrenatural buscar sua fonte. Ele está vivo e alerta dentro de cada um de nós.

A história envolve um casal, Mario e Diana, e um evento: o estupro de Diana. O que ocorre depois vai se desenvolvendo em uma trama de tortura psicológica em uma crescente fascinante representada pelos sons naturais que se ouve ao redor.

Sim, este é mais um filme que, como o ótimo Som Ao Redor, usa dos sons internos à história para montar sua trilha sonora. Isso graças às composições dos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato, que com sua tecnicidade apaixonante conseguem realizar um dos primeiros trabalhos da cinematografia brasileira onde o som não é um problema, mas uma virtude imensa.

Tudo isso, claro, aproveitado por dois ótimos atores. Se Carolina Dieckmann faz pouco na maior parte do tempo, suas cenas inicial e final fazem valer o filme pelo impacto que nos deixará pelo resto da vida. Já Leonardo Sbaraglia compõe o seu Mario de uma maneira compenetrada e que lembra um outro ótimo filme sobre investigação amadora: Para Minha Amada Morta. Porém, diferente do personagem de Fernando Alves no filme de Aly Muritiba, Sbaraglia não se contém em nenhum momento, e sua narrativa estabelece um sujeito com traços sociopatas, mas que passam despercebido graças à cena inicial protagonizada por Dieckmann. Ou seja, uma dupla e tanto!

É preciso notar também que a fotografia de Pedro Luque neste filme está assombrosa. O uso das sombras no cotidiano, mesmo que causada por árvores no parque, soa ameaçadora, mesmo com crianças brincando nesse parque. O uso do azul como um símbolo de pureza maculada, e uma tortura psicológica naquela casa, assim como os traços de vermelho para destoar de uma maneira mais bruta do conjunto remetem a obras-primas como A Lista de Schindler. Porém, não exatamente cafona como o filme de Spielberg, “O Silêncio” busca um tom poético e macabro nos símbolos que carrega.

Como uma pedra. Uma simples pedra, colocada por acidente no meio da casa, em cima de uma mesa, que pode ser vista como o centro das atenções (embora ninguém a note). Essa pedra é o retrato perfeito do que acontece logo após a primeira cena. Há algo de errado naquele lar, mas por algum motivo especial, ninguém se pronuncia. E é por isso que são importantíssimas as narrações em off dos dois personagens, que se confundem com seus pensamentos enquanto vagueiam pela vida sem muita perspectiva. Note como a narração começa em Diana, passa rapidamente por Mario (que toma conta do filme) e na cena final ouvimos novamente Diana. É uma rima belíssima e poderosa, dado os eventos que ocorrem em ambos os momentos.

O diretor Marco Dutra domina o suspense com elementos naturais da narrativa, mas também usa e abusa dos seus enquadramentos com cenários cheios de objetos, supercloses poderosos, e um controle do espaço e do tempo que não permitem que exista outra coisa a ser resolvida do que “a pedra no meio da casa”. Seu uso de luz e sombra combina com os símbolos trágicos por trás da história, muito embora eu não me atreva a tentar desvendá-los por completo.

Afinal de contas, O Silêncio do Céu não e uma história prontinha, com final feliz e tudo que todos gostam. Pelo contrário. É um filme com uma história simples, mas significados muito complexos. E por causa disso, talvez o grande público fique boiando e achando o final uma droga. Mas observe mais de perto. Mais perto. Dentro de si mesmo. O que você espera de uma história que começa com um estupro, à luz do dia, em sua própria casa?

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-09-13 imdb