O Som ao Redor

O Som ao Redor não é o tipo de filme que a gente consiga descobrir através da sua história qual o tema e a opinião do diretor sobre o que ocorre na tela. A coisa toda está mais como um espelho, onde nossa observação dos fatos e a sua interpretação — sobretudo moral — é que irá inserir um significado. Mesmo assim, dadas as devidas proporções, todo filme possui essa liberdade de interpretação. Do contrário, nem existiria crítica, pois todas as respostas estariam no filme, e não haveriam perguntas.

Acompanhamos a vida das pessoas de uma pequena rua em um bairro de classe média. Não somos propriamente apresentados a eles, mas o vemos meio como quem espia a vida alheia. No caso, várias vidas alheias. O tom de realidade é dado não apenas por interpretações convincentes de todo o elenco como pessoas comuns, como pela ausência completa de trilha sonora. O filme honra o seu título e possui percursão musical, temática e transitória através do aumento e diminuição do volume de determinados sons presentes no próprio ambiente e que — esses sim, nos são apresentados desde o começo, em uma sequência sem cortes de uma menina andando de patinete dentro de um condomínio. A sinfonia que se forma pelos lugares por onde passa é o suficiente para que identifiquemos boa parte dos ruídos que ouviremos deslocados de cena, mas presentes, de certa forma, no momento que percebemos que todas as vidas ali mostradas estão ligadas em maior ou menor grau.

E qual o tema sugerido? Uma resposta das mais óbvias seria sobre a moralidade daqueles cidadãos.

Vejamos um pequeno exemplo para não nos estendermos demais: o toca-CDs da amiga de um personagem é roubado por um dos vizinhos, que — coincidência ou não — é seu primo. Após uma visita nada cordial — afinal, antes de acusar os outros, esteja certo de não insultar sua honra, mesmo que a pessoa seja culpada — o aparelho é devolvido. Só que se trata do seu aparelho, mas de outro. A decisão dela foi ficar com esse mesmo, que parecia até melhor do que ela tinha.

Pois bem. Quem defenderia a inocência dessa mulher, de que ela não sabia que esse também era produto de um furto? Não precisa ser muito inteligente para saber disso, mas talvez exija um grau de moralidade muito acima da média, o que é uma triste notícia para nós como seres humanos.

E isso é apenas um exemplo, mas existem vários que, apesar de não serem escancarados, o fato de serem sutis é mais um sintoma de que talvez tenhamos chegado em um nível de degradação moral que, haja o que houver, faríamos o mesmo. O fato de inconscientemente sabermos que se trata de um filme, ou seja, produto de fantasia, faz tudo parecer devidamente encaixado em uma realidade que não nos pertence.

Será mesmo. E é aí que entra o espelho, acusando o espectador sem apontar para ele. Somos responsáveis por esse filme, ou pelo menos o que ele significa. Nesse sentido, O Som ao Redor tem muito a dizer como um filme para uma sociedade que acha tudo isso normal.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-01-14. O Som ao Redor. O Som ao Redor (Brazil, 2012). Dirigido por Kleber Mendonça Filho. Escrito por Kleber Mendonça Filho. Com Ana Rita Gurgel, Caio Almeida, Maeve Jinkings, Dida Maia, Felipe Bandeira, Gustavo Jahn, Irma Brown, Mauricéia Conceição, Graziela Santos da Rocha. imdb