O Suspeito da Rua Arlington

Apr 10, 2015

Imagens

Esse é um filme morno que escapa da mediocridade em seus minutos finais, quando o seu final surpreendente te faz repensar toda a história, achar alguns furos (bem óbvios) e terminar ainda com um saldo positivo. “É, tem furos, foi um desenvolvimento medíocre, mas faz pensar em um bocado de coisas”. Entre filmes que são ótimos de assistir e ótimos de esquecer e filmes que são razoáveis mas vão te deixar pensando por um bom tempo neles, prefira os últimos.

O filme começa com uma criança esvaindo-se em sangue, quase desmaiando, bem no meio de uma pacífica rua de subúrbio norte-americano. Um dos vizinhos, ao chegar de carro, rapidamente socorre a criança e a leva ao hospital. Em desespero, a única coisa que importa para o professor Michael Faraday (Jeff Bridges) é que a criança consiga ser salva. Em contraparte, a única coisa que importa para a enfermeira que dá entrada no caso é saber o nome do garoto.

Passam algumas cenas. O professor agora está dando a sua aula preferida: terrorismo. Mais especificamente, o terrorismo interno, de pessoas descontentes com o governo e que por um motivo ou outro acabam explodindo alguma instituição pública e eles mesmos. O clima de insegurança gerado por esses atos extremos é tão grande, ainda mais ao descobrir que o ato foi praticado por um cidadão até então considerado comum que, na visão de Faraday, tudo que as pessoas envolvidas no caso precisam entregar para as autoridades, para a mídia e para o público é um nome. O nome do responsável por aquela catástrofe parece conseguir retirar a culpa desses atos de toda a sociedade e jogar em um indivíduo fora do normal. A paz volta a reinar novamente.

Talvez consumido por ressentimentos da morte de sua mulher – uma ex-agente do FBI que morreu em uma operação desastrosa – e por insistir em dar aulas sobre o assunto, uma paranoia constante cresce dentro de Michael a respeito dos vizinhos pais da criança que salvou. Seria ele um terrorista disfarçado? Não, não é assim que o filme nos apresenta suas dúvidas. No começo são dúvidas sobre a identidade do sujeito. Pesquisando sobre Oliver Lang (Tim Robbins) em sua cidade-natal, acaba descobrindo que ele mudou o nome e já esteve envolvido em uma tentativa de ataque aos 16 anos. Cada novo fato se liga aos anteriores. Enquanto isso aumenta a aproximação dos filhos dos vizinhos, com idades aproximadas. Não se sabe quanto tempo passa, mas agora eles viajam juntos em um acampamento. A paranoia de Faraday irrita sua atual namorada, que também foi sua aluna, principalmente por esta estar diretamente relacionada com o passado de sua ex-esposa.

O maior problema desse desenvolvimento é que ele vai aos poucos revelando uma trama que já é previsível desde a primeira suspeita. As cenas se contrapõem para ir revelando o óbvio sem muita criatividade. A trilha sonora de Angelo Badalamenti, horrível, parece sugerir filmes conspiratórios da década de 60 (ou até 50) e um tom meio hitchcockiano, mas a mescla do drama com a tensão acaba revelando uma temática trash que fica difícil de desassociar. Principalmente se juntarmos a direção de Mark Pellington que insiste em movimentos de câmera exagerados e uso de tomadas arbitrariamente escolhidas. Quando Faraday vai buscar mais informações na casa do suspeito e começa a folhear alguns papéis, a câmera em determinado momento parece querer sugerir que o papel está de olho nele. Algo absurdo, não? Pois é esse exemplo que permeia o trabalho de Pellington, que parece não se decidir que história deseja contar, o que enfraquece o longa como um todo.

No entanto, sua direção não deixa de ter virtudes aqui e ali, embora quase escondidas. Quando a namorada de Faraday está espreitando um personagem em um estacionamento há um corte preciso entre seu semblante em uma coluna e um close repentino em seus olhos que é algo sensacional. Pena que esses movimentos são os mais raros, e não há uma abordagem consistente para um roteiro até que interessante de Ehren Kruger (O Chamado), que apesar de óbvio parece suplicar por um polimento a mais para virar uma obra-prima.

Infelizmente, apenas o seu final consegue revirar todos aqueles momentos e fazer-nos pensar em tudo o que o professor disse durante as aulas, rever tudo o que sabemos sobre mídia, política e discursos. A paranoia parece passar do protagonista para nós mesmos, percorrendo todos os detalhes da trama, encontrando os já citados furos (o da namorada é o mais gritante ou controverso) e chegando até o garoto ensanguentado no começo. Há uma rima entre o começo e o final que também grita para aparecer aos seus espectadores, que precisam entender que grande filme é esse que está tão bem escondido.

Wanderley Caloni, 2015-04-10. O Suspeito da Rua Arlington. Arlington Road (USA, 1999). Dirigido por Mark Pellington. Escrito por Ehren Kruger. Com Jeff Bridges, Tim Robbins, Joan Cusack, Hope Davis, Robert Gossett, Mason Gamble, Spencer Treat Clark, Stanley Anderson, Viviane Vives. IMDB.