O Suspeito da Rua Arlington

Esse é um filme morno que escapa da mediocridade em seus minutos finais, quando o seu final surpreendente te faz repensar toda a história, achar alguns furos (bem óbvios) e terminar ainda com um saldo positivo. “É, tem furos, foi um desenvolvimento medíocre, mas faz pensar em um bocado de coisas”. Entre filmes que são ótimos de assistir e ótimos de esquecer e filmes que são razoáveis mas vão te deixar pensando por um bom tempo neles, prefira os últimos.

O filme começa com uma criança esvaindo-se em sangue, quase desmaiando, bem no meio de uma pacífica rua de subúrbio norte-americano. Um dos vizinhos, ao chegar de carro, rapidamente socorre a criança e a leva ao hospital. Em desespero, a única coisa que importa para o professor Michael Faraday (Jeff Bridges) é que a criança consiga ser salva. Em contraparte, a única coisa que importa para a enfermeira que dá entrada no caso é saber o nome do garoto.

Passam algumas cenas. O professor agora está dando a sua aula preferida: terrorismo. Mais especificamente, o terrorismo interno, de pessoas descontentes com o governo e que por um motivo ou outro acabam explodindo alguma instituição pública e eles mesmos. O clima de insegurança gerado por esses atos extremos é tão grande, ainda mais ao descobrir que o ato foi praticado por um cidadão até então considerado comum que, na visão de Faraday, tudo que as pessoas envolvidas no caso precisam entregar para as autoridades, para a mídia e para o público é um nome. O nome do responsável por aquela catástrofe parece conseguir retirar a culpa desses atos de toda a sociedade e jogar em um indivíduo fora do normal. A paz volta a reinar novamente.

Talvez consumido por ressentimentos da morte de sua mulher – uma ex-agente do FBI que morreu em uma operação desastrosa – e por insistir em dar aulas sobre o assunto, uma paranoia constante cresce dentro de Michael a respeito dos vizinhos pais da criança que salvou. Seria ele um terrorista disfarçado? Não, não é assim que o filme nos apresenta suas dúvidas. No começo são dúvidas sobre a identidade do sujeito. Pesquisando sobre Oliver Lang (Tim Robbins) em sua cidade-natal, acaba descobrindo que ele mudou o nome e já esteve envolvido em uma tentativa de ataque aos 16 anos. Cada novo fato se liga aos anteriores. Enquanto isso aumenta a aproximação dos filhos dos vizinhos, com idades aproximadas. Não se sabe quanto tempo passa, mas agora eles viajam juntos em um acampamento. A paranoia de Faraday irrita sua atual namorada, que também foi sua aluna, principalmente por esta estar diretamente relacionada com o passado de sua ex-esposa.

O maior problema desse desenvolvimento é que ele vai aos poucos revelando uma trama que já é previsível desde a primeira suspeita. As cenas se contrapõem para ir revelando o óbvio sem muita criatividade. A trilha sonora de Angelo Badalamenti, horrível, parece sugerir filmes conspiratórios da década de 60 (ou até 50) e um tom meio hitchcockiano, mas a mescla do drama com a tensão acaba revelando uma temática trash que fica difícil de desassociar. Principalmente se juntarmos a direção de Mark Pellington que insiste em movimentos de câmera exagerados e uso de tomadas arbitrariamente escolhidas. Quando Faraday vai buscar mais informações na casa do suspeito e começa a folhear alguns papéis, a câmera em determinado momento parece querer sugerir que o papel está de olho nele. Algo absurdo, não? Pois é esse exemplo que permeia o trabalho de Pellington, que parece não se decidir que história deseja contar, o que enfraquece o longa como um todo.

No entanto, sua direção não deixa de ter virtudes aqui e ali, embora quase escondidas. Quando a namorada de Faraday está espreitando um personagem em um estacionamento há um corte preciso entre seu semblante em uma coluna e um close repentino em seus olhos que é algo sensacional. Pena que esses movimentos são os mais raros, e não há uma abordagem consistente para um roteiro até que interessante de Ehren Kruger (O Chamado), que apesar de óbvio parece suplicar por um polimento a mais para virar uma obra-prima.

Infelizmente, apenas o seu final consegue revirar todos aqueles momentos e fazer-nos pensar em tudo o que o professor disse durante as aulas, rever tudo o que sabemos sobre mídia, política e discursos. A paranoia parece passar do protagonista para nós mesmos, percorrendo todos os detalhes da trama, encontrando os já citados furos (o da namorada é o mais gritante ou controverso) e chegando até o garoto ensanguentado no começo. Há uma rima entre o começo e o final que também grita para aparecer aos seus espectadores, que precisam entender que grande filme é esse que está tão bem escondido.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-04-10 imdb