O Terceiro Homem

Um filme com uma trilha sonora leve e temático e enquadramentos tortos que lembram que algo está errado. E está, mesmo: Viena está tomada por quatros povos diferentes, cada um fala um idioma, e o povo local fala alemão. Escambos perigosos no mercado negro estão por toda a parte. A atmosfera de O Terceiro Homem é densa, e seus acontecimentos precisos, cirúrgicos. É daqueles raros filmes que não se pode arriscar remover um momento ou expressão sequer. E muito menos uma das inúmeras câmeras tombadas.

O diretor Carol Reed (Oliver!) desafia a gravidade e o senso estético da época com quadros colocados na diagonal que imprimem um ar expressionista em torno da destruída Viena. Seus pontos turísticos e suas ruínas de edifícios ganham outros contornos no filme. Isso sem contar nas sombras, tão ativas quantos seus personagens e cenários, e que o fotógrafo Robert Krasker (que lhe rendeu um Oscar) consegue captar com uma poesia intensa a cada quadro. A maioria pode ser emoldurada na parede.

Seu herói é o escritor de livros de ficção de crimes fantasiosos Holly Martins (Joseph Cotten), mas ele passeia em torno de personagens muito mais pitorescos. Investigando a morte repentina de seu amigo, que lhe prometera um emprego quando chegasse à cidade, conhece uma mulher misteriosa apaixonada por ele e com um visto falso que ganhou de presente (Alida Valli), um investigador/major de polícia perspicaz (Trevor Howard), um porteiro que quase não fala inglês, uma senhora que também não fala e não se importa em ser entendida. Enfim, um mar de pessoas que povoam a imaginação de Martins enquanto este tenta achar lógica nos acontecimentos que culminaram no enterro de seu melhor amigo.

Os créditos iniciais já denunciam a presença de Orson Welles, também, e é difícil não aguardar a aparição do diretor de Cidadão Kane. Harry Lime é o personagem-chave que ele encarna, e como nunca. Poucas expressões, falas e movimentos de corpo são necessários para identificá-lo como um criminoso da pior espécie. Seu diálogo mais famoso, que termina falando da invenção do relógio-cuco pelos suíços, é dito de cima de uma montanha-russa, onde sutilmente ameaça seu melhor amigo. No entanto, o filme não é só Welles. Antes e depois dele o filme tem tons distintos, e o terceiro ato é um dos mais tensos já produzidos, graças às construções de alianças e desconfianças no primeiro e segundo.

Concluindo com uma sequência fabulosa debaixo das ruas de Viena, O Terceiro Homem pode fazer passar despercebido sua maestria. No entanto, note como a história voa, como todas as cenas são necessárias e se encaixam para revelar seus personagens sem quase nada gratuito. Poético, engraçado sem fazer rir, dramático sem fazer chorar. Um filme técnico irrepreensível. Um filme para pensar no Cinema sem ser uma história sobre o Cinema.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-01-11. O Terceiro Homem. The Third Man (UK, 1949). Dirigido por Carol Reed. Escrito por Graham Greene, Graham Greene, Alexander Korda, Carol Reed, Orson Welles. Com Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard, Bernard Lee, Paul Hörbiger, Ernst Deutsch, Siegfried Breuer, Erich Ponto. imdb