O Tigre e o Dragão

Muitos fãs de artes marciais torceram o nariz na época em que O Tigre e o Dragão foi lançado. Na visão deles, o fato das pessoas “voarem” tirava toda a realidade da história. Muitos perderam a noção de que sempre existe uma metamorfose entre a história e o seu narrador. Quando falamos de uma história milenar, são tantas gerações no caminho, que torna-se fácil achar tudo exagerado e absurdo.

O que o diretor Ang Lee fez com o material do romance de Du Lu Wang adaptado por três roteiristas foi empoderar o romance fabuloso por trás das histórias do povo da Manchúria com todos os elementos presentes tanto no romance original quanto nas lendas chinesas. Porém, o filme vai além, e engrandece a beleza dessas lendas em cenários deslumbrantes, reconstruindo boa parte de suas pinturas. Além disso, conta com um romance que trabalha questões filosóficas e épicas de forma tão intensa com seus personagens que se torna difícil não ficar absorvido pela história. Para finalizar, apresenta uma série de lutas que ficarão conhecidas eternamente pela emoção que evocam.

É particularmente fascinante como as cores se equilibram durante a luz do sol e da lua, e como personagens cruéis por natureza sempre se vestem de negro (como a bruxa Jade Fox), outros sábios se vestem de maneira simplista e sempre com tons claros (Yu Shu Lien e Li Mu Bai), enquanto outros apresentam um misto (Jen Yu e Lo ‘Dark Cloud’), não por acaso os mais jovens da trama. Na luta, o mesmo padrão se apresenta, e vemos os mais tempestuosos realizando manobras ágeis, porém impensadas, contrabalanceando com toda a humildade e serenidade dos que conhecem esse caminho como ninguém. O momento mais icônico das lutas talvez nem seja a impressionante luta das “meninas” no salão de armas, mas o Mestre Li Mu Bai recitando pequenas frases que tentam dissuadir uma jovem utilizando um galho como sua espada.

E se contarmos pelas virtudes técnicas, não é preciso dizer nada. Basta comparar os efeitos visuais desse filme de 2000 com sua continuação produzida pela Netflix, dezesseis anos depois. A continuação é sofrível em sua computação barata e desleixada, enquanto o original se assemelha muito mais a um trabalho tão dedicado que, assim como “2001 - Uma Odisseia no Espaço” (1968), deve figurar no Cinema entre os filmes que envelheceram muito bem, apesar de abusarem de efeitos.

Mas nada disso seria relevante se o coração do filme não tivesse sido moldado em torno de um objetivo: tornar a arte marcial algo não apenas bonito, não apenas artístico e não apenas luta. Aqui os movimentos dos espadachins é a pura expressão de sua existência. É a essência dos sábios que treinaram pela vida inteira que traz beleza às lutas, e não a luta em si. É a história por trás da luta que merece ser celebrada, e seus personagens, intensos em sua essência. O filme é uma lenda viva que estabelece como regra nada abaixo do impecável. É a própria arte marcial influenciando a sétima arte pela sua obstinação pela perfeição.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-03-15 imdb