O Valor de um Homem

Sim, é um filme socialista. Como poderia ser diferente, em meio a uma crise europeia, e no seu núcleo, a odiosa França, cheia de ódio pelas liberdades individuais? A França é um exemplo a ser seguido por todos os Estados: controla cada pedaço da vida de seus habitantes, e quando tudo dá errado, culpa o capitalismo.

Porém, este filme é um pedaço de bom caminho, cinematograficamente falando. O diretor, Stéphane Brizé, sabe dialogar a respeito do ser humano, e fez o ótimo Mademoiselle Chambon com o mesmo ator. Aqui, Vincent Lindon faz Thierry, um operador de máquinas que, depois de ser demitido da fábrica onde trabalhava por longa data, procura por 15 meses uma recolocação no mercado.

Só que o mercado foi dilacerado por medidas populistas. Vemos Thierry em uma entrevista, visivelmente desesperado. Essa desespero o acompanha até o banco, onde sua gerente sabe tudo sobre ele, suas necessidades… e não pode fazer nada mais do que oferecer um seguro de vida. A morte, já dizia o cinema coreano, às vezes é uma saída fácil, financeiramente falando.

Porém, este não é um filme tão óbvio, e a direção intimista de Brizé, com a câmera na mão e closes absurdos, mesmo com o zoom meio torto, entrega um trabalho baseado em saltos no tempo e espaço que vão pincelando o que o diretor acha sobre esse tema, criando um universo em que a vida não é nada fácil para os trabalhadores e para os clientes.

A virada do filme acontece quando ele de fato consegue um emprego, mas em outra área, e passa a monitorar furtos em um supermercado, e acompanha as pessoas responsáveis por pequenos delitos, sejam elas clientes ou mesmo funcionários. Sua queda financeira pode ser sentida aos poucos. A sutileza é um ponto forte do longa.

A interpretação de Vincent Lindon, com seu bidoge boa pinta, mas sua falta de sorriso e um olhar cabisbaixo revelam um homem prestes a desabar. Até dançando ele é metódico… e um desastre. Sua incapacidade de lidar com o mundo que o cerca é o reflexo de nós mesmos, como espectadores, vivenciando aquela realidade opressiva (do “capital”, claro… das “grandes empresas”, claro), onde clientes e funcionários são questionados em uma salinha do lado sobre furtos e pequenos delitos.

E, obviamente, a grande sacada do filme é que Thierry vai se tornando aos poucos “um deles”. Sua existência castigada de diferentes formas, seja uma oferta baixa por um casebre onde passou bons momentos, ou os julgamentos de um grupo absurdamente sincero a respeito de um vídeo de uma entrevista sua, ou até mesmo a observação de fatos da vida, como a aposentadoria de uma funcionária com 32 anos de casa, ou o suicídio de uma outra, interrogada por utilizar cupons de descontos. Sim, a essa altura o filme joga sua sutileza para o alto e, como todo bom filme propagandista (e comunista), tenta esfregar na nossa cara o aburdo dessa situação.

Sim, é absurdo. Não é isso que estou questionando. Porém, desconfio que claramente divergimos quando o assunto é por que isso se tornou absurdo dessa forma. Isso o filme não discute, e nem quer saber. Assim como Thierry, sua vida vitimista vai apenas encantando as pessoas, obcecadas pela pobreza, de espírito e de dinheiro.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-05-20. O Valor de um Homem. La loi du marché (France, 2015). Dirigido por Stéphane Brizé. Escrito por Stéphane Brizé, Olivier Gorce. Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller, Yves Ory, Xavier Mathieu, Paul Portoleau, Pierre-Jean Feld, Philippe Vesco, Christophe Rossignon. imdb