Old Boy

Quando o filme inicia, temos um breve momento com o futuro Dae-su Oh (Min-sik Choi) durante um curioso diálogo com um homem que parece depender do protagonista para manter-se vivo. A conversa aparece cortada no meio, e boa parte da história parece seguir a mesma lógica. Quando voltamos um indeterminado período de tempo, somos apresentados a um irreconhecível, mulherengo e causador de problemas Dae-su. Se descontrolando diversas vezes enquanto aguarda em uma delegacia com seu amigo, mal conseguimos relacionar o pedaço de homem que vemos com sua versão mais velha, cansada e, o mais importante de tudo, determinada.

O homem do passado possuía uma mulher e uma filha, para quem daria um presente de aniversário naquela noite. Isso se não tivesse desaparecido misteriosamente, deixando para trás um passado que não lhe pertence mais. Acompanhamos a partir daí o prisioneiro Dae-su, que não sabe sequer por que está preso. Ele pretende fugir e se vingar, mas ainda não sabemos de quem. Ouvimos seus pensamentos solitários, e vamos entendendo seu drama conforme os anos passam.

Segunda parte da trilogia temática (vingança) do diretor Chan-wook Park, Old Boy cria rimas semânticas e visuais que poderiam impressionar e entreter por si só, como uma belíssima sequência de uma luta em um corredor estreito. Porém, além do efeito estético é possível acompanhar a história de um homem que já perdeu tudo e se move apenas pelo instinto de vingança. Não há qualquer outro motivo que o faz se tornar tão determinado, nem a jovem garota que encontra em um sushi-bar e que começa a se interessar.

Curioso constatar ainda que, mesmo fora de sua prisão, Dae-su mantém-se constantemente vigiado e parece fazer parte de um plano maior. Se por um lado há uma lógica macabra por trás disso, isso também nos dá uma informação vital a respeito do espírito do protagonista, que se mantém ainda preso, apesar de poder se banhar dos raios do sol e atravessar a rua. A vingança, esse instinto primário que tomou conta de Dae-su, se torna sua prisão da alma. Dessa forma, tudo que ele faz parece ser doloroso, mas Dae-su parece anestesiado. Todos seus gestos são feitos com um ar cansado. Seu cabelo em torno de sua face limitam sua visão, assim como a pequena porta por onde passava o alimento em seu cárcere o limitava.

Como havia dito, há rimas por todas as partes. O final, impactante por si só, se torna visceral por conta dessas rimas. A vida se transforma em uma brincadeira trágica, onde não há sentido em continuar vivendo se não for pela possibilidade de se vingar de algo. Chan-wook vai até as últimas consequências, e é isso que torna Old Boy tão especial não apenas esteticamente, mas tematicamente.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-07-22 imdb