Onde os Fracos não Têm Vez

Deve existir um “bug” ou chip implantado na maioria dos críticos para que estes adorem filmes que se preocupam milimetricamente em realizar a experiência mais real possível, ainda que estes estejam equipados de fotografia, figurino, direção de arte e roteiro. Isso poderia explicar a veneração quase que incondicional de certas obras, como O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), Amor (Michael Haneke, 2012) e este Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, os mesmos que já haviam realizado Fargo e cuja existência não pode passar em branco ao analisarmos seu filme gêmeo.

Dito isto, é um filme tenso e sereno ao mesmo tempo. Sua quase ausência de trilha sonora (e diálogos) e seus enquadramentos calculados em torno de uma tela extremamente larga o transformam em um épico instantâneo que acompanha a caça em torno de uma maleta com dois milhões encontrada por acaso por Llewelyn Moss (Josh Brolin), um morador local veterano de guerra. Acompanhado de perto por um dos assassinos mais sem escrúpulos que o Cinema já viu, Anton Chigurh, vivido sem limites por Javier Bardem, e por um oficial da lei que faz o papel vivido por Tommy Lee Jones mas que basicamente continua a personagem vivida por Frances McDormand em Fargo. O criminoso (Barden) o segue fisicamente muito perto, e quase podemos sentir sua respiração logo atrás. A lei (Lee Jones) o segue quase que metaforicamente, através de uma investigação que parece cada vez avançar menos.

E é exatamente essa a moral da história dos Coen, verbalizada por Lee Jones. O mal hoje em dia é inimaginável perto do que nossos antepassados já viram, muitos deles xerifes que sequer se preocupavam em portar uma arma. A maldade em No Country for Old Men atinge qualquer um que estiver à frente dos objetivos de Chigurh, por mais banais que eles sejam. A jogada da moeda, um toque pessoal do assassino, visualiza de maneira exemplar o aspecto caótico dessa violência: “a moeda chegou aqui assim como eu”. Essa frase para mim sintetiza toda a essência desse personagem, e em uma futura revisita ela fará mais sentido do que todos as outras falas juntas. O filme termina basicamente aí, pois percebe-se a falta de ritmo e jeito para terminar “a aventura”. Um evento raro no currículo dos Coen, que já nos brindaram com trabalhos tão memoráveis.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-03-04 imdb