Operação Big Hero

Essa é uma animação Disney, mas não se engane: embaixo de sua cara inocente e fofinha existe a mancha de mais uma série de personagens da famigerada Marvel, que vem tentando destruir o departamento de criação no Cinema já faz alguns filmes, criando um universo onde sempre que um grupo de amigos se encontram, obviamente é para se transformarem em super-heróis e combater o mal (e/ou vilões que vão pelo lado contrário). Duncan Rouleau e Steven T. Seagle criaram os personagens ainda no gibi, Jordan Roberts, Daniel Gerson e Robert L. Baird assinam o roteiro. Mas os verdadeiros culpados por esse Pixar mutilado são Paul Briggs e Joseph Mateo, que assinam como Head of Story, ou seja, os caras que gerenciam um time de roteiristas para que a história não vire um caos completo. O que aqui, infelizmente, é quase o que vemos em sua metade final.

A boa notícia é que o herói do filme é um nerd. Não no sentido atual da moda em que basta gostar da série X, dos livros Y ou usar as camisetas Z que se vira automaticamente um aficionado por qualquer coisa (pop) que exista. O nerd do filme é mais old-style, mas que mantém o aspecto cool ganhando dinheiro apostando em lutas de robôs usando o velho artifício que Paul Newman usava na sinuca em Desafio à Corrupção (1961), o que torna essa introdução uma das mais intelectualmente ambiciosas da Pixar, usando de toda a sutilidade que apenas os mais – claro – nerds irão capturar. Influenciado pelo igualmente inteligente irmão, Hiro (Ryan Potter) começa a aspirar por algo maior quando um acidente causa uma tragédia irreparável e impensável em um “filme de criança” não fosse essa uma das introduções mais frias da equipe de animadores especialistas em nos fazer chorar.

Ainda falando do campo das boas ideias em torno de Operação Big Hero, não revelar muito sobre a natureza do robô especialista em cuidados médicos e usar cenas inexistentes no filme nos trailers costuma gerar resultados positivos, e aqui não é diferente. Portanto, se você quiser se sentir melhor a respeito do filme, recomendo ir assisti-lo não sabendo muito sobre ele (dessa forma, se você ainda não assistiu… o que está fazendo aqui?). Cenas engraçadinhas à parte, a lógica por trás do personagem Baymax (Scott Adsit) é fascinante na interação com Hiro, e a forma com que ele se utiliza da criação do irmão de uma maneira cada vez menos convencional é o que torna o desenvolvimento da primeira metade a mais interessante. Isso e a outra ótima ideia de manter um pequeno suspense a respeito da identidade de um suposto vilão.

Para fechar a rodada de elogios, é preciso fazer uma menção honrosa à uma trilha sonora que é uma ode aos nerds, utilizando música eletrônica mesclada com ritmo de jogos de video-game e que se insere na atmosfera a alterando na medida certa.

Feito isso, parece que o filme já está com tudo engatilhado para mais cenas de ação, humor e de fazer chorar que irão alavancar ainda mais as boas ideias desse longa. Porém, o que vemos é exatamente o inverso. Se desmoronando lentamente a cada novo acontecimento desde a revelação do vilão misterioso, o filme nos dá tempo demais para pensar, um grave erro se você está tentando surpreender o espectador sobre o que realmente aconteceu no incêndio do início do filme. E um gravíssimo erro se você está confiando na inteligência do espectador desde a sua introdução da história. Da revelação até juntar os pontos e concluir que é impossível que a relação entre os personagens, o incêndio, uma segunda tragédia e a ordem dos eventos faça qualquer sentido independente de como você repensa a trama.

Porém, pior do que isso é tentar transformar sub-personagens em uma equipe de super-heróis que se une por um motivo em comum, mas que, uma vez que esse motivo não existe mais, continua no mesmo ritmo porque… porque… ora, porque são heróis da Marvel! Quem se importa? Ignora Os Incríveis, um filme de 10 anos atrás da própria Pixar e que é um marco na criação de personagens com super-poderes, apenas para revelar uma trupe tão indiferente à morte que começamos a ficar indiferentes ao filme. E mais uma vez: quem se importa? E, para concluir, querendo pegar carona mais uma vez nas continuações, estraga qualquer possibilidade de fechamento que não ficasse óbvio que aqueles personagens foram criados para uma franquia e não para fecharem um arco dramaticamente satisfatório. E pela última vez: quem se importa?

Oras, quem se importa? Talvez você não devesse começar essa história apresentando um nerd de verdade…

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-12-31. Operação Big Hero. Big Hero 6 (USA, 2014). Dirigido por Don Hall, Chris Williams. Escrito por Jordan Roberts, Daniel Gerson, Robert L. Baird, Duncan Rouleau, Steven T. Seagle, Paul Briggs, Joseph Mateo. Com Scott Adsit, Ryan Potter, Daniel Henney, T.J. Miller, Jamie Chung, Damon Wayans Jr., Genesis Rodriguez, James Cromwell, Alan Tudyk. imdb