Orgulho e Preconceito e Zumbis

Zumbis costumam ser elementos de crítica social muito pertinentes. George Romero os criou para isso em A Noite dos Mortos Vivos, e fez tantos outros filmes com esse mesmo objetivo. The Walking Dead, a série de sucesso, usa zumbis para descrever um mundo pós-apocalíptico que em nada tem a ver com os zumbis em si. E até as empreitadas mais nerds (Zumbilândia) têm mais relação com a figura do nerd do que com a própria criatura, um pretexto tão bom quanto sci-fi ou filmes-catástrofe.

Dessa forma, quase não contive a empolgação ao saber que fizeram um filme que junta um dos melhores romances de Jane Austen (ou pelo menos um dos romances que gerou um dos melhores filmes, de 2005) com o pano de fundo dos comedores de cérebro. Seria sensacional acompanhar o pretexto de usar criaturas semi-mortas na época do Império Britânico e quando a aristocracia estava mais preocupada em organizar bailes e disputar a mão de mulheres que traziam heranças de brinde.

Portanto, não deixa de ser uma grande decepção esse filme, que não é ruim, mas mais graças ao conteúdo original de Austen e menos graças à novidade inserida na mesma história. E quando digo “mesma história” é porque é realmente isso: mesmos personagens, mesmas situações, mesmos diálogos! A diferença? As mulheres, que já eram o sexo forte no romance, se armam de facas e espadas entre seus delicados vestidos, sempre prontas para se defender (dos zumbis). Tendo feito treinamento de luta na Ásia (com um detalhe divertido: as ricas vão para o Japão, as pobres, para a China), elas também constantemente realizam lutar entre elas (a Sra. Bennet exclama em determinado momento: “vocês vão derrubar a casa um dia desses!”). E no caso de uma família como os Bennet, ter meia-dúzia de filhas propicia um ambiente rico dessas exibições, além de pretendentes que prefeririam que suas donzelas não fossem tão letais.

Tendo os mesmos personagens, resta rir deles. Certo? Errado. Com exceção de um muito bem-humorado Mr. Collins (Matt Smith), que quase rouba a cena do filme inteiro, os personagens são praticamente os mesmos: o orgulhoso Mr. Darcy (Sam Riley), o bom-rapaz Mr. Wickham (Jack Huston), a preconceituosa Beth Bennet (Lily James) e suas irmãs, entre elas uma que ronca bem alto. Ha ha ha.

Com uma produção até que razoável, o filme possui alguns efeitos digitais interessantes, mas digitais. Fora isso, uma inserção ou outra de zumbis não eleva o espírito da comédia, pois sempre voltamos para o conhecido romance de Mr. Darcy e Miss Bennet, além das discussões a respeito de quanto cada um ganha ou tem de fortuna. A exceção ficaria por conta de um grupo de zumbis que, evitando comer cérebro de humanos (sim, existe uma regra nova), se mantém mortos, porém não apodrecendo, e resistem à tentação através da fé, organizando missas frequentes. Eles seriam os “intelectuais” entre os zumbis, a sua aristrocracia. Alguém brinca que se bobear vão parar no parlamento. É esse conteúdo que falta em todo o filme.

E que infelizmente é preenchido com Orgulho e Preconceito com pequenas diferenças (que envolvem zumbis, mas quem liga?). Mesmo quando há uma luta razoavelmente grande, ninguém dá a mínima. Onde estão os zumbis de Romero, e sua crítica social? Chega a ser ofensivo apresentar zumbis para os Bennet. Eles seriam muito mais espirituosos do que são no filme.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-02-12. Orgulho e Preconceito e Zumbis. Pride and Prejudice and Zombies (USA, 2016). Dirigido por Burr Steers. Escrito por Burr Steers, Jane Austen, Seth Grahame-Smith. Com Lily James, Sam Riley, Bella Heathcote, Ellie Bamber, Millie Brady, Suki Waterhouse, Douglas Booth, Sally Phillips, Charles Dance. imdb