Os Anarquistas

Sou um anarquista, e deveria me sentir representado. Nem tanto. A despeito disso ser impossível para uma pessoa que não acredita nessas besteiras de democracia, em Os Anarquistas, o que interessa mais é manter um romance entre o protagonista e a bela moça de “Azul é a Cor Mais Quente”, e o fato deles serem anarquistas é apenas um acidente contemporâneo (é um grupo que está ficando na moda, com tantas discussões políticas no mundo). O fato é que a atmosfera política é tão fina nesse filme que pode-se aproveitar apenas seu esmero estético em situar esse grupo no lugar onde deveriam estar naquela época: às sombras, sem nunca serem notados, mas com a força estatal sempre disposta a esmagá-los assim que possível.

Curioso que o “herói” da história era um policial que vira infiltrado, movido por não ter esperança e também pelo dinheiro. Quase o oposto do grupo onde se infiltra, que pendem muito mais para o anarco-comunismo – um conceito impossível, mas até aquela época, tão viável quanto o comunismo em si. De qualquer forma, é sempre de dinheiro que eles também precisam, para evitar ter que trabalhar nas fábricas burguesas.

Estamos na virada do século 19 para o 20: o Iluminismo. E, mesmo assim, o figurino e a fotografia extremamente sombrias remontam da origem desses grupos, sempre isolados, descentralizados e completamente esquecidos. Ninguém se importa com os anti-estados; talvez até os ateus tenham já ganhado mais holofotes desde o início das discussões de internet.

O personagem principal, Jean, é vivido por Tahar Rahim de uma maneira convincente, mas entregue a um roteiro que não tem muito a dizer sobre isso. Exceto, talvez, para uma de suas últimas falas, quando precisa responder se virou anarquista. É óbvio que não é uma resposta simples, pois já sabemos do perigo do clichê “Dança com Lobos” ser tão provável em filmes como esse.

Enquanto isso, a bela Exarchopoulos apenas exibe seus lábios, e só. O filme se esqueceu de apresentá-la mais do que isso. As personagens mulheres nesse filme são artistas, mas vemos apenas uma, a anfitriã, entrevistando os líderes masculinos do “time”.

E por falar em líderes, a presença de Guillaume Gouix como o perspicaz Eugène nunca é sentida, e mesmo ele sendo o cara mais desconfiado do grupo, logo Jean ganha sua confiança incondicional por tê-lo salvo de uma batida policial. Durante todo o filme sentimos falta dessa tensão presente em filmes políticos, e logo fica claro que o objetivo não é retratar uma vertente filosófica, mas mais um romance “proibido” (algo que também não condiz com o grupo, pois o amor livre era uma das bandeiras dessa corrente).

Conseguindo imprimir uma atmosfera densa e imediata, através do uso da câmera na mão e closes bem fechados em um ambiente mal-iluminado, Os Anarquistas é uma experiência plástica muito bem produzida, mas sem muita alma para exibir. Tirando um momento ou outro, apenas um drama de segunda categoria que sequer se importa em quais as ideias desses personagens tão controversos.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-05-14 imdb