Os Boxtrolls

Essa animação tem o dom de enganar seus sentidos. Sério. Se você olhar demais para os detalhes vai pensar que a computação usada tem uma ou outra deficiência na composição dos movimentos, particularmente na expressão dos personagens quando eles falam. Até que você se dá conta: os criadores devem ter feito de propósito para dar a impressão de ser uma espécie de stop motion muito perfeito.

Até que acaba o filme e você se dá conta que é um stop motion muito perfeito. Há dois personagens que durante toda a narrativa servem de “isca” para essa sensação, sempre questionando seu lugar na história. Seriam eles os vilões de um filme? Mas, se tudo for um filme, quem são eles senão peças habilmente manipuladas por criadores oniscientes?

Agora ignore todo esse papo metalinguístico. Independente disso, Boxtrolls é um belo filme infantil com explicações simples e visuais para temas adultos. A ambição do vilão, por exemplo, é conseguir um chapéu branco, pois quem os têm pode provar os queijos mais finos da cidade de Queijândia e, se sobrar tempo, decidir os rumos da cidade. É fascinante como isso ilustra a típica vulgaridade do Estado e seus governantes privilegiados que não conseguem enxergar um palmo diante dos seus narizes (e bocas) além dos seus deleites diários. Distraídos de tanto prazer se “esquecem” de fazer escolas e hospitais para seus habitantes.

A história gira em torno de convencer a todos da cidade que os tais Boxtrolls não são os monstros que a equipe de extermínio de Boxtrolls diz que são (mais uma versão adulta da propaganda enganosa e enviesada), mas o fato de serem esses bichos estranhos que vivem debaixo da terra não ajuda, nem estarem dentro de caixas (cada um na sua) e costumarem surrupiar coisas da superfície para construir engenhocas em seu pequeno mundo. Mas comer bebês, nunca.

Com uma direção de arte que consegue combinar detalhes da cidade do queijo até com o nome de suas ruas (a rua leite termina na rua coalhada), a fotografia faz um belíssimo trabalho em torno da dualidade noite/dia. Alguns Boxtrolls são azulados, o que serve como uma ótima rima visual (até porque o queijo é amarelo).

Também é uma história infantil, mas com um tom ou outro mais sério (como o risco de uma criança morrer queimada). Não recomendaria para crianças muito pequenas, ou para as tantas sensíveis hoje em dia.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-12-23 imdb