Os Caçadores da Arca Perdida

Este é um filme clássico de aventuras. Ele transforma o personagem James Bond em um arqueólogo e que continua sendo, nos moldes tradicionais, um homem de verdade. Ele mata quando preciso, e as mortes acontecem de verdade – com sangue e tiros, e não como na nossa geração leite-com-pera atual, se estiver se perguntando. Indiana Jones está disposto a arriscar a vida pelo que acredita. Ele é durão em um filme que ri dos clichês sérios. Ele contém um tema musical inesquecível e uma trilha sonora que se confunde com Star Wars, outro filme estelado por Harrison Ford na mesma época (e ambos compostos pelo músico John Williams).

A história está envolta pela lenda do Dr. Jones, um professor em uma universidade de história conceituada que além de todo seu arcabouço teórico sai a campo em busca de tesouros escondidos no melhor estilo Tomb Raider (aliás, este videogame emula em muito os filmes do herói), onde há armadilhas instaladas por povos antigos, quase sempre disparadas por alavancas ou o poder do sol. A história também está envolta dos nazistas, pois ela se passa na época da segunda guerra. Hitler é obcecado por religião e busca encontrar a arca de aliança entre Deus e os hebreus, onde estão as tábuas dos dez mandamentos originais. Ter uma ponte de comunicação com Deus seria a chave da vitória para os alemães. O filme é envolto em uma realidade em que, nos mesmos moldes de Dan Brown, contém boa parte de história real, mas diferente deste, vai até as últimas consequências, sejam elas sobrenaturais ou não.

Há uma linda moça para o herói, Marion, a estonteante Karen Allen, e que aqui gerencia um bar no Nepal que pertencia ao seu pai. Ela é jovem e era o interesse quase-pedófilo de Jones em um passado distante. Hoje vira sócia e par amoroso. Ela contém o carisma e o timing cômico melhor que Harrison Ford, mas ninguém consegue vencer do sorriso de lado deste herói bonachão que parece alheio ao fato de estar em um filme de aventuras arqueológicas.

Aliás, este é um herói tão controverso que várias pessoas lhe salvam a vida durante o filme, seja com um tiro, uma hélice, ou até segurando uma tâmara no momento final, demonstrando sua fraqueza sozinho e sua força quando rodeado de amigos.

O roteiro de Lawrence Kasdan (O Retorno de Jedi), baseado em história de George Lucas e Philip Kaufman, mantém impressionantemente suas pontas ligadas em torno de uma história simples, mas que sempre consegue levar o espectador adiante. Detalhes como tâmaras envenenadas, truques com cestos, antessalas temperadas com serpentes e uma perseguição de carros/caminhão que vai além do convencional são inseridas da maneira mais natural possível, e é justamente quando a realidade encontra a fantasia deste gênero que o filme se torna cada vez melhor.

Aliás, é preciso elogiar a energia com que Steven Spielberg, o diretor, consegue nos conduzir por diferentes cenários e situações, além de através de seu editor, Michael Kahn (auxiliado por Lucas), nunca nos fazer perder o fio da meada, ou nos fazer perder de maneira proposital. A sequência dos cestos, onde há diferentes corredores em um lugar de comércio labiríntico é particularmente eficiente nesse ponto, pois nos faz perder o senso de direção enquanto consegue continuar a perseguição (e nós sabemos onde estão os bandidos e onde está o mocinho e a donzela, apesar de não muito certos). Ao mesmo tempo, a perseguição do caminhão é o ponto máximo do filme, onde a trilha sonora (e seu tema) ecoam mais forte porque é aí que reside boa parte do poder do personagem. A destreza de Indiana Jones combinada com sua força de vontade conseguem o milagre de tornar uma sequência relativamente realista em um nível de tensão que nenhum dos filmes Velozes e Furiosos ainda conseguiu. Isso porque, diferente da franquia de carros turbinados, aqui importam os personagens, e não os efeitos.

E por falar em efeitos, o terceiro ato é sucinto e eficaz utilizando efeitos ainda convincentes e que remetem a tudo que foi dito a respeito da tal arca. Pode soar um deux ex machina, mas mesmo que soe, faz parte da história. Melhor mesmo, só a volta para as salas imponentes da universidade e a parceria com os representantes do governo – que, aliás, lembram muito os investigadores de As Aventuras de TinTim pela sua incompetência, um filme recente de Spielberg – demonstrando um final realista e, por isso mesmo, desapontador. A aventura, como vista no filme, permanece na força individual de seus heróis, e nunca na pesada mão do coletivo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-10-16. Os Caçadores da Arca Perdida. Raiders of the Lost Ark (USA, 1981). Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Lawrence Kasdan, George Lucas, Philip Kaufman. Com Harrison Ford (Indy), Karen Allen (Marion Ravenwood), Paul Freeman (Dr. René Belloq), Ronald Lacey (Major Arnold Toht), John Rhys-Davies (Sallah), Denholm Elliott (Dr. Marcus Brody), Alfred Molina (Satipo), Wolf Kahler (Colonel Dietrich), Anthony Higgins (Gobler). imdb