Os Estagiários

Não sei o nível de entrosamento de Vince Vaughn com os roteiros que participa, mas co-assinando a história do ótimo Separados pelo Casamento e os roteiros de Encontro de Casais e agora Os Estagiários me diz que pelo menos ele não se importa tanto quanto o egocêntrico Adam Sandler em proteger sua “imagem pública”. Mas não se engane: seus personagens podem ser antipáticos em alguns momentos, mas sempre sairão por cima ou terão algo que ninguém tem. Nesse caso, a capacidade de ser um excelente vendedor.

Só que a Era de vendedores de relógio como Billy (Vahghn) e Nick (Owen Wilson) já passou faz um tempo, e agora que a firma para onde trabalhavam fechou as portas eles têm a ideia de se inscrever no programa de estágios do novo sonho americano: trabalhar no Google. Levando mais tempo do que deveria em sua introdução, finalmente somos levados às instalações e às pessoas que regem a internet. E, assim como Vaughn, a Google não se importa em ser caracterizada como arrogante e insensível durante o trajeto da história, desde que no final fique valendo a imagem deste ser o lugar dos sonhos.

Durante uma competição que envolve equipes de estagiários lutando por meia-dúzia de vagas o que vale é a inteligência dessa nova geração, às custas do fator humano cada vez mais ausente nas interações entre essas pessoas. Os jovens do programa de estágio não se importam se estão magoando alguém, desde que elas entreguem o que elas precisam: auto-afirmação em meio a uma multidão de mentes brilhantes. Aqui ser brilhante não parece ter valor para a sociedade, mas para a pessoa em si. Ela se sente bem em poder tratar o resto da humanidade como lixo (especialmente os mais velhos ou gordos), pois assim ela fará mais parte ainda do topo. É óbvio que essa observação vale para o “vilão” do filme, um jovem particularmente cruel com sua própria equipe (em cenas maniqueístas, lógico). No entanto, ela valeria para quase todo mundo naquele ambiente onde sobreviver implica em não ter tempo de olhar para a pessoa que está do seu lado, tentando entender o que vai fazer com a sua porção de peças do mesmo quebra-cabeças.

Maniqueísmos e vilões fabricados à parte, o bom do filme é que a equipe onde Billy e Nick estão não é apenas um amontoado de estereótipos, mas pessoas com suas histórias e seus dilemas. Dessa forma, apesar do jovem Lyle (Josh Brener) ficar com a equipe mais fraca sua empolgação em coordená-la é cativante. E se Neha (Tiya Sircar) é a mais julgada por fazer o estilo “vivida” – mesmo que não seja verdade – ela se torna vítima de seu próprio estereótipo. E até os fraquíssimos arco de Yo-Yo Santos (Tobit Raphael) e Stuart (Dylan O’Brien) entretêm na medida certa.

E a medida é um filme raso, porém moderadamente divertido. Faz pensar em coisas, especialmente se você é o tipo de que vive sua vida 90% em frente ao computador (como eu), seja no trabalho ou por diversão. Quer dizer, assisti esse filme pelo computador durante uma folga do serviço. E depois que ele acabou, onde foi que voltei a trabalhar? Exato.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-03-07 imdb