Os Infratores

Os Infratores é um filme de gênero: de gângsteres, para ser exato. Se passa na época da lei seca, quando comercializar bebidas nos Estados Unidos era um crime punido severamente. Acompanhamos a narrativa em off de Jack (Shia LaBeouf), um dos três irmãos Forrest (Tom Hardy), Howard (Jason Clarke) e Cricket (Dane DeHaan). Juntos formam a família Bondurant, que através do controle da distribuição ilegal de licores criados de forma caseira administram sua influência no Condado de Franklin, uma região isolada vizinha de Chicago (que, não é preciso lembrar, foi a morada de Al Capone).

A maneira quase episódica com que a história é conduzida, através de pequenos acontecimentos que, aparentemente inofensivos, revelam cada vez mais sobre a situação vivida por aquelas pessoas, foi a solução empregada pelo diretor John Hillcoat (A Estrada) para que consigamos apreciar o cenário do pequeno condado por completo, desde as diferenças entre os irmãos, a relação com as outras famílias e as autoridades e até a igreja local. Para isso boa parte do tempo é sabiamente empregada para distinguir seus personagens, transformando-os, aos poucos, em pessoas de carne e osso. A grande vantagem do projeto é contar com um elenco extremamente competente, que mesmo em seus papéis de menos destaque — como o do sempre excelente Gary Oldman como o gângster da cidade Floyd Banner — conseguem garantir o “seu momento”, e quando olhamos para todas essas figuras ao mesmo tempo é possível entender o drama não apenas por sua violência gráfica, mas principalmente pelo seu lado mais humano.

Dessa forma, é vital que a atuação de Tom Hardy como Forrest Bondurant, o líder entre os irmãos e os seus negócios escusos, esteja afiada como uma navalha, e que seu sotaque interiorano cuspa semi-frases que dizem mais pela maneira com que são ditas do que pela frase em si. É dessa maneira que entendemos de maneira cômica um “sim” não dito para a recém-contratada garçonete de seu bar, a confiantemente linda Maggie Beauford (Jessica Chastain), que confirma que deseja que a moça trabalhe para ele, mas ao mesmo tempo tente empregar um desdém nesse desejo, embora sem muito sucesso. Da mesma maneira, a participação impressionante de Shia LaBeouf como Jack Bondurant emprega uma inocência meticulosamente construída para que o rapaz possa se transformar a qualquer momento em um membro legítimo da família, lidando com os negócios de igual para igual.

Não menos importante, porém, é a construção enérgica do odiável vilão Charlie Rakes (Guy Pearce), que com seus maneirismos urbanos e repulsa pelo meio de vida rural consegue a proeza de, com menos tempo de tela, parecer tão ou mais importante do que os habitantes da vila. Sua maneira de falar e gesticular lembra um Coronel Hans Landa (Bastárdos Inglórios) menos polido e mais mesquinho, embora dificilmente perto da comicidade dúbia de Christoph Waltz.

Fora o elenco afiado, e voltando ao filme em si, o que mais impressiona em Os Infratores é a montagem do tabuleiro para o seu xeque-mate fatídico, que é sublime em sutilezas. O cuidado e a calma com que os pormenores são colocados fazem valer a pena a paciência empregada na uma hora e meia inicial para a breve síntese do que a opressão às liberdades pode causar. Ou, por outro lado, talvez a opressão amoral seja o combustível para que nós, como seres humanos, consigamos evoluir ou para que um carro sem gasolina dê a partida.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-10-19 imdb