Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe

Esta parece ser uma grande oportunidade para vermos grandes atores contracenando juntos. Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson. Além disso há Adam Sandler. E também é uma ótima oportunidade de vermos o diretor Noah Baumbach realizando um drama familiar que cheira a Woody Allen, já que todo mundo é artista e disfuncional. Mas me pergunto: será que estou sendo redundante aqui?

Baumbach já é um especialista em famílias disfuncionais e arcos de personagens não-convencionais. Começando com Frances Ha, onde apresenta as habilidades da atriz Greta Gerwirg, e terminando em Enquanto Somos Jovens, com um Ben Stiller em seu melhor, Baumbach realiza a necessidade que temos de entender os conflitos internos humanos que permeiam as nossas esquisitices e os caminhos que nossas vidas levaram.

Ao escolher o mesmo Ben Stiller de Enquanto Somos Jovens e o colocar como o sucesso da família em vez do documentarista obscuro em crise criativa, mas fazê-lo contracenar com o mesmo Adam Drive que o rouba a cena no filme anterior, ambos os filmes dialogam não apenas sobre a mesmice do que se tornou um gênero “família disfuncional e personagens incompletos e esquisitos”, mas coloca uma luz sobre nossos próprios pensamentos a respeito de como a história (nossas memórias) e a narrativa (mais uma vez nossas memórias, mas seletiva) muitas vezes desempenham o papel principal em responder a questão “quem sou eu?”. E a resposta são as inúmeras comédias amarguradas da vida não-vivida.

Mas claro que o tempo presente continua sendo o lembrete do que fizemos em nossas vidas. Principalmente se você está de volta na casa dos seus pais dormindo no sofá. Os personagens de Stiller, Sandler e Hoffman brincam o tempo todo com isso, seja em seus pensamentos ou na sua maneira de reagir à realidade. Uma repetição ambulante, Hoffman faz aqui um artista que nunca fez sucesso e que agora está em fim de carreira. Ele tenta manter uma espécie de ritual em contar uma piada para se tornar centro das atenções (“você precisava ver o outro cachorro”), o que nunca funciona, e foge dos lembretes de como seus colegas de profissão se saíram muito melhor que ele, realizando no processo uma análise crítica sobre os trabalhos alheios que pode até estar certo, mas acabam revelando muito mais sobre quem diz sobre o que é dito.

Este é um trabalho complexo de Baumbach, que se perde facilmente em detalhes. Tentando contar o drama e trauma de cada familiar, eles se anulam em vez de somarem. A passagem da irmã deles é mero alívio cômico gerado como necessidade burocrática de explicar sobre essa irmã, também. O filme tem capítulos que disfarçadamente contam a história de cada um dos filhos dessa família formada por várias ex-esposas e seus (in)consequentes meios-irmãos. São muitos os acontecimentos, que acabam se intercalando e assumindo uma estrutura episódica, mas ainda assim colaboram para avançar a história principal de conhecermos um pouco do que nos torna essas pessoas meio-vencedora e meio-perdedora que todo mundo que já se deu a liberdade de auto-análise reconheceu.

Adam Sandler tem muito tempo de tela, e Baumbach resolve colocando um close ligeiramente maior e desfocado, barbas por fazer, algum maneirismo (ele manca depois de ficar muito tempo sentado) e a mania de perder a paciência rapidamente (principalmente no trânsito) e eventualmente gritar, onde o diretor corta a cena. Sandler já mostrou um pouco de talento no filme de Paul Thomas Anderson, Embriagados de Amor, e aqui repete a façanha. Empalidece frente aos outros, mas não faz tão feio.

Já Ben Stiller comprova cada vez mais que é um ator (e até cineasta) em ascenção. Note a cena em que ele está com o pai internado no hospital e o pai lhe traz uma lembrança que o deixa orgulhoso. Ele se mantém firme, mas um pequeno, micro-resquício de sorriso, surge no lado direito de seus lábios. E seus olhos mudam, quase brilham. Stiller está no controle da situação a todo momento, e embora tenha se especializado em personagens com esse maneirismo de sempre se sentir incomodado, e aqui não seja diferente, ele está contido, auto-centrado, e estranhamente lembra um pouco Hoffman em início de carreira.

E Dustin Hoffman, é claro, é o nosso eterno Rain Main. Ele estabelece com tanta empatia seu pai e artista atrapalhado e incompetente que nunca nos sentimos mal pela educação que este deu a eles. Ele é aquela parente (para muitos o pai) que sabemos que é uma bagunça ambulante, mas que não conseguimos vencer. Ele é o que é, e se sente confortável assim. Ele nunca muda, nunca mudou e mantém essa família orbitando em torno dele. Todos se preocupam, e o velho mantém seu ritmo, persistente ou alheio. É como se para ele o tempo não passasse.

Os Meyerowitz é um filme com muitas lições sobre a vida e sobre resquícios de pessoas que já conhecemos e somos. Como todo filme desse gênero. Mas esse tem um quê de intimidade que vai nos deixando mais confortáveis que desconfortáveis. E quando observamos os irmãos brigando desajeitadamente no gramado molhado, soa familiar. Esta é a vida como ela é, imperfeita, nem sempre o que esperamos, mas é a vida. E não se escolhe a vida.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2018-01-31 imdb