Os Oito Odiados

Se há um motivo para a existência de Os Oitos Odiados é dar o mais que merecido Oscar para o compositor Ennio Morricone. No entanto, esse prêmio negado ao músico de trilhas icônicas como Os Intocáveis, Era Uma Vez na América e Cinema Paradiso irá agora figurar como o mesmo Oscar negado a Martin Scorsese em toda sua carreira até Os Infiltrados: longe de ser o melhor trabalho; apenas um prêmio de consolação.

Por outro lado, temos uma revelação surpreendente em Jennifer Jason Leigh, que cria uma vilã que se diverte imensamente em ser a mensageira do diabo em um “barzinho” que irá virar a boca do inferno cercada de uma nevasca interminável.

Ainda do lado das atuações de destaque, Samuel L. Jackson usa todo o poder de um personagem que ganha sua liberdade na recém-terminada guerra civil americana, mas que continua fortalecendo sua posição a cada gesto e diálogo do próximo sulista rancoroso que encontrar pela frente. Podemos imaginar o personagem de L. Jackson como reencarnação de Django no filme anterior do diretor, onde um negro ousava andar livre e armado ao redor de plantações do rio Mississipi.

Já Quentin Tarantino, em seu oitavo filme – como gosta de alardear nos créditos iniciais – parece se apaixonar perdidamente pela sua técnica e se esquecer momentaneamente como fazer filmes que prendem a atenção do começo ao fim. Ele agora arrasta do começo ao fim o desenrolar da história, como se estivesse com dó de cortar cenas ou de deixar a direção (o diretor diz que quer fazer apenas 10 filmes no total, sendo o motivo apontado por às vezes contar em que número estamos).

O elenco em geral já trabalhou com o diretor e se esforça em manter um clima western parte Sergio Leoneano, parte Tarantinesco. Os diálogos são espertos demais para serem reais, e há um clima investigativo em um momento que desfaz toda a atmosfera rústica daquelas pessoas vivendo uma época onde andar armado (e saber atirar) é mandatório.

Mas não há nada na estética do filme que decepcione. Estamos assistindo a um filme autêntico de bang-bang, no melhor estilo superprodução e com uma fotografia (Robert Richardson) de fazer-nos parar por minutos apenas para apreciar a beleza das paisagens externas, além da competência com que a interna é retratada, sem perder-se em sombras.

Aliás, a falta de “pecadilhos” em um filme dessa época acaba soando mais teatral do que devia. Claro que o clima Tarantinesco das mortes (especialmente por envenenamento) contribui para fugirmos daquele universo (e lembrarmos, mais uma vez, que este é um filme de Tarantino… oitavo, certo?), mas talvez a excessiva compaixão das pessoas envolvidas, e a forma com que conversam, torna as coisas estranhas.

Já a história é a convenção em pessoa, o que nos remete diretamente aos problemas do roteirista Quentin Tarantino. Se em filmes do velho oeste – especialmente os de Sergio Leone – há de se experimentar situações extremas que irão fazer o chão vibrar, aqui toda a “logística” envolvida para fazer esses personagens interagir é mecânico demais. Os personagens do filme não são humanos vivendo uma época dura, mas arquétipos vivendo o sonho Tarantinesco.

E tudo isso joga Os Oito Odiados ainda mais perto do palco e mais longe da tela. Não que a história não valesse a pena acompanhar, nem o desempenho dos atores em personagens no mínimo curiosos. No entanto, tudo isso é irrelevante, se pressentirmos que todo este tabuleiro de xadrez já estava montado quando a partida começou.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-07-29 imdb