Os Suspeitos

Em 1995 Kevin Spacey entrou em uma dobradinha (favor ignorar “Epidemia”) que virou clássica nos filmes de suspense e policiais. “Seven: Os Sete Crimes Capitais” remodelou o gênero de serial killer em uma conclusão que deixou muita gente filosofando por meses a fio (os mais fanáticos, como eu, até hoje). E Os Suspeitos ganhou a mesma fama (esse eu cheguei a ver no cinema, tinha acabado de completar 16 ou quase). Ambos são filmes em que o mal prevalece? Não necessariamente. Temos aí uma relativização assimétrica do mal. Os policiais nem sempre são bonzinhos. Por outro lado, os bandidos continuam maus, mas agora assumem o papel de justiceiros involuntários.

O que empolga durante os rapidíssimos 106 minutos do filme de Bryan Singer (da série X-Men) é a desenvoltura de um interrogatório informal que se desenvolve de maneira natural a partir de um criminoso menor que resolveu dar a língua nos dentes: Roger ‘Verbal’ Kint (Spacey). Apelidado por falar muito, é curioso que em todos os flashbacks que acompanhamos da história de Verbal ele quase não fala, ainda que seja conhecido como o “homem do plano” em todos os golpes aplicados por uma gangue aleatoriamente formada durante uma caça a suspeitos de um roubo de caminhão anos atrás.

Verbal possui um ar infantilizado, quase inofensivo. Sua deficiência no pé parece favorecer isso, mas são suas expressões e seu tom de voz que apontam para qualquer um presente que ele chega a quase ser uma vítima das circunstâncias. Porém, como pode ser isso se era ele que planejava as ações criminosas?

Aí entra a parte mais fascinante do roteiro de Christopher McQuarrie (No Limite do Amanhã): temos apenas o testemunho de Verbal durante todo o filme, e exceto por uma ou outra pista eventual a única forma de ligar os pontos em sua história é a partir dela mesma. Qual a realidade que Verbal está montando em sua cabeça? Quais seus objetivos? Por que um aleijado inútil mentiria? Os diálogos em ritmo frenético contribuem para nossa percepção caótica dos eventos, e Verbal parece ser a única maneira de juntar as peças.

Tendo pouquíssimos pontos fracos em sua trama (como a falta de perspicácia de um delegado facilmente influenciável) Os Suspeitos é exemplo de roteiro, de direção e de atuação, mas mais que isso: é um exemplo de vida. Quantas vezes somos levados pela versão dos fatos a concluir exatamente o que as pessoas que estão narrando esse “fato” desejam que concluamos? Quantas vezes precisamos acordar o nosso cérebro para discernir entre uma realidade que gostaríamos que fosse verdade e a versão mais plausível e menos floreada? Ou pior: geralmente somos nós que queremos chegar à essa conclusão (como acontece no filme). A realidade é mais fascinante que a ficção, mas infelizmente ela não dispõe da vantagem de ter um efusivo narrador em seu apoio.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-10-04. Os Suspeitos. The Usual Suspects (USA, 1995). Dirigido por Bryan Singer. Escrito por Christopher McQuarrie. Com Stephen Baldwin, Gabriel Byrne, Benicio Del Toro, Kevin Pollak, Kevin Spacey, Chazz Palminteri, Pete Postlethwaite, Suzy Amis, Giancarlo Esposito. imdb