Outlander - Segunda Temporada

2017/07/27

A segunda temporada de Outlander mantém as mesmas virtudes da primeira – figurino, direção de arte, fotografia – e ainda melhora a atuação. Concentrado em tentar entregar sempre alguma mudança, por menor que seja, em cada episódio, esta parte da série consegue quase sempre evocar a já bem estabelecida atmosfera de seu início, mas se mantém fraco na tensão de seus dramas, e desperdiça seu maior mote: a luta do dia-a-dia pela mudança do destino.

Não necessariamente desperdiça, mas deixa em segundo plano demais para que consigamos ver “the big picture”, ou as engrenagens da História se movendo lentamente. É óbvio que é do maior interesse dos criadores evitar paradoxos temporais, mas um polimento melhor no roteiro conseguiria entregar isso e ainda ligar melhor suas pontas, que estão forradas de coincidências, principalmente no último e mais longo episódio. É curioso notar que é justamente neste episódios que sentimos de fato tudo o que foi vivido como aspectos de uma História imutável, mas sempre sendo redescoberta através de novas narrativas.

Os marxistas de plantão ficariam em êxtase com essa série.

É preciso ressaltar a sempre boa postura de Sam Heughan como o escocês dono de terras e oficial do exército James Fraser, que desde o começo tem se saído a melhor surpresa da série. Porém, nesta segunda temporada a suposta protagonista Claire parece extrair através da vivência de Caitriona Balfe uma participação que começa a se sentir à vontade (talvez até demais, oscilando entre o automático e o exagerado). Por outro lado, personagens secundários como Murtagh possuem em seus rostos expressões imortalizadas por atores como Duncan Lacroix, que é perfeito para o papel. E até a dicção afetada e caricata do maligno Simon Callow como Duque de Sandringham é parte significativa desse mosaico que tenta reconstruir a história romantizada da luta jacobina, em que uma Escócia sob o domínio inglês se vê ainda mais subjugada.

Isso nos leva ao verdadeiro motivo da série ser tão magnetizante: o seu gênero. Este é um romance, no sentido que seus personagens históricos são romantizados, idealizados, e é portanto a melhor forma de estabelecer perante o público o que você considera como ideal de ser humano, de ação, de atitudes, de coisas a ser ditas. Jamie Fraser é a síntese disso tudo, mas cada um dos personagens contém em seu âmago essa missão de entregar elementos antigos que hoje não existe mais, e conceitos antigos usados à exaustão e que aos poucos viram lugar-comum, como a defesa da honra. Além disso, o casal Fraser é o ideal de um casal, sempre entregues a seus objetivos juntos, e cúmplices do que houver pela frente, por mais terrível que seja. Eles são quase a versão bons mocinhos do casal principal de House of Cards, embora não com a mesma versatilidade. É o espírito que conta.

Há vários acontecimentos dignos de nota nesta segunda temporada, e vou citar apenas a coragem dos roteiristas em já entregar seu final na primeira cena. Porém, vítimas ainda de pontas soltas e soluções simples (como a incrível coincidência de todos se conhecerem e terem descendentes ligados diretamente à viagem no tempo no último episódio), eles estão longe de entregar as mesmas soluções robustas de séries como Breaking Bad (que usa do mesmo recurso).

E estão longe de entregar uma season finale decente, que termine de uma vez sua história, mesmo que tenham que recomeçá-la o próximo ano.

★★★★☆ Outlander. USA, 2014. Direction: Metin Hüseyin. Anna Foerster. Brian Kelly. Mike Barker. Philip John. Brendan Maher. John Dahl. Richard Clark. Douglas Mackinnon. Script: Ronald D. Moore. Diana Gabaldon. Ira Steven Behr. Toni Graphia. Anne Kenney. Matthew B. Roberts. Cast: Caitriona Balfe (Claire Randall). Sam Heughan (Jamie Fraser). Duncan Lacroix (Murtagh Fraser). Tobias Menzies (Jack Randall / ...). Grant O'Rourke (Rupert MacKenzie). Graham McTavish (Dougal MacKenzie). Stephen Walters (Angus Mhor). Simon Callow (Duke of Sandringham). Edition: Melissa Lawson Cheung. Michael O'Halloran. Liza Cardinale. Cinematography: Neville Kidd. Stephen McNutt. Martin Fuhrer. Michael Swan. Denis Crossan. David Higgs. Soundtrack: Bear McCreary. Runtime: 64::(approx.). Gender: Drama. Category: blog Tags: netflix outlander series

Share on: Facebook | Twitter | Google