País do Desejo

Feb 4, 2013

Imagens

Filmes como Febre do Rato e O Som ao Redor possuem narrativas pouco convencionais, mas seus temas são tão bem explorados e ensinados ao espectador que não conseguimos imaginar maneira melhor de contar uma história. Que é exatamente o que não existe em País do Desejo, que articula temas complexos e polêmicos como o aborto e a castidade dos padres sem a mínima intenção de explorá-los como mereceriam.

Roberta (Maria Padilha, linda como sempre) é uma famosa artista que utiliza a música para se expressar. O passado trágico envolvendo sua mãe a torna enclausurada em sentimentos mórbidos (quer até usar um requiem, uma espécie de música mórbida, para seu próximo show). Sua relação de amizade com o Padre José (Fábio Assunção) indica sua necessidade de comunicação com o seu lado mais místico, e a fotografia que transita entre as sombras escuras de sua casa e a luz branca do sol e do quarto de hospital onde se encontra após um evento a transforma metaforicamente na figura angelical. Como contraparte, a enfermeira japonesa (Juliana Kametani) que vem cuidar da mãe do padre se veste de maneira sensual, se comporta sensualmente e gosta de provocar deixando a porta aberta do seu quarto enquanto passa creme seminua em seu corpo. Note como seu cabelo no ônibus que chega à passargada possui um aspecto de chifres. Qualquer relação dualidade anjo/diabo, por mais absurdo que possa parecer, está contido nas confusas mensagens do filme.

Já Padre José é aquela figura carismática que faz o bem aos seus fiéis pela bondade cristã de ajudar o próximo, o que o faz bater de frente com a visão sempre anacrônica da igreja, corporizada pela figura do bispo (Nicolau Breyner), seu superior, que parece convenientemente favorecer o status quo de sua religião hierárquica tanto pelos seus privilégios (que o diretor Paulo Caldas representa com um suntuoso almoço em uma suntuosa sala) quanto pela sua demonstração de poder.

Se todos esses elementos não precisassem ser mastigados pelo espectador perdidos e sem pistas em uma novela de caráter global e que nunca permite que seus personagens digam a que vieram (com a possível exceção do bispo, unidimensional à rica) o trabalho de Paulo Caldas e do roteirista Pedro Severien seria infinitamente mais ambicioso.

Porém, pelo visto, o diretor não quis entregar nada mais que os eventos enfileirados, o que parece mais material de pesquisa do que uma história pensada e trabalhada para comunicar ideias que ousam desafiar a narrativa clássica do cinema.

Wanderley Caloni, 2013-02-04. País do Desejo. País do Desejo (Brazil, 2012). Dirigido por Paulo Caldas. Escrito por Paulo Caldas, Pedro Severien, Amin Stepple. Com Fábio Assunção, Gabriel Braga Nunes, Nicolau Breyner, Germano Haiut, Maria Padilha. IMDB.