País do Desejo

Filmes como Febre do Rato e O Som ao Redor possuem narrativas pouco convencionais, mas seus temas são tão bem explorados e ensinados ao espectador que não conseguimos imaginar maneira melhor de contar uma história. Que é exatamente o que não existe em País do Desejo, que articula temas complexos e polêmicos como o aborto e a castidade dos padres sem a mínima intenção de explorá-los como mereceriam.

Roberta (Maria Padilha, linda como sempre) é uma famosa artista que utiliza a música para se expressar. O passado trágico envolvendo sua mãe a torna enclausurada em sentimentos mórbidos (quer até usar um requiem, uma espécie de música mórbida, para seu próximo show). Sua relação de amizade com o Padre José (Fábio Assunção) indica sua necessidade de comunicação com o seu lado mais místico, e a fotografia que transita entre as sombras escuras de sua casa e a luz branca do sol e do quarto de hospital onde se encontra após um evento a transforma metaforicamente na figura angelical. Como contraparte, a enfermeira japonesa (Juliana Kametani) que vem cuidar da mãe do padre se veste de maneira sensual, se comporta sensualmente e gosta de provocar deixando a porta aberta do seu quarto enquanto passa creme seminua em seu corpo. Note como seu cabelo no ônibus que chega à passargada possui um aspecto de chifres. Qualquer relação dualidade anjo/diabo, por mais absurdo que possa parecer, está contido nas confusas mensagens do filme.

Já Padre José é aquela figura carismática que faz o bem aos seus fiéis pela bondade cristã de ajudar o próximo, o que o faz bater de frente com a visão sempre anacrônica da igreja, corporizada pela figura do bispo (Nicolau Breyner), seu superior, que parece convenientemente favorecer o status quo de sua religião hierárquica tanto pelos seus privilégios (que o diretor Paulo Caldas representa com um suntuoso almoço em uma suntuosa sala) quanto pela sua demonstração de poder.

Se todos esses elementos não precisassem ser mastigados pelo espectador perdidos e sem pistas em uma novela de caráter global e que nunca permite que seus personagens digam a que vieram (com a possível exceção do bispo, unidimensional à rica) o trabalho de Paulo Caldas e do roteirista Pedro Severien seria infinitamente mais ambicioso.

Porém, pelo visto, o diretor não quis entregar nada mais que os eventos enfileirados, o que parece mais material de pesquisa do que uma história pensada e trabalhada para comunicar ideias que ousam desafiar a narrativa clássica do cinema.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2013-02-04 imdb