Pantera Negra

May 24, 2018

Imagens

Uma desgraça o que o Império Britânico fez com os povos colonizados da África. E agora, após assistir Pantera Negra, eu não consigo deixar de me lembrar desse sotaque britânico inconveniente de Chadwick Boseman, que soa tão fake, mas tão fake, que chega a ser mais fake que a própria historieta do filme sobre recursos trazerem tecnologia e sobre a riqueza ser um jogo de soma zero. Até quando serão contadas as lendas sobre economia folclórica ou dívida histórica para nossos filhos? É uma desgraça.

Mas, dito isto, Pantera Negra possui em seu núcleo uma narrativa original, que utiliza elementos culturais africanos para conseguir reciclar o já defasado sub-gênero de sub-super-heróis da Marvel que ninguém nunca ouviu falar. Aqui há a lenda de Wakanda, que foi agraciada por um meteoro com o material mais resistente da Terra, vibranium, e que por isso é o povo mais próspero do continente negro. Embora ninguém tenha explicado como eles manipulam esse material mais resistente, o que me deixou pensando durante todo o filme é como os idealizadores dessa história conseguem harmonizar o fato de que aparentemente é a monarquia (sistema herdado dos brancos britânicos) que mantém uma certa estabilidade nesta sociedade, e é o sistema tribal o que a desestabiliza. Marco cultural ou não, aqui é visto como um ato selvagem, que é mantido por pura tradição.

Já em outro continente temos o elemento mágico da dívida histórica, onde a escravidão gerou subúrbios pobres e marginalizados nos EUA com negros que dependem de atos ilegais para sobreviver e poder comprar suas asas de frango. Os wakandianos passeiam às vezes por essas bandas, possuem representatividade na ONU (como já vimos em Guerra Civil), embora sejam vistos como um país pobre do terceiro mundo que não tem nada a oferecer ao resto do mundo. E a única parte que é verdade no sistema geo-econômico atual aqui é uma grande mentira mantida por este povo, e cujos motivos nunca são realmente explicados.

O que é realmente explicado durante todo o momento é como o uso do vibranium é praticamente responsável por tudo no filme, seja a tecnologia que fornece trens magnéticos para todos os lados ou até a tecnologia para a guerra e proteção (eles estão escondidos do resto do mundo por um escudo invisível).

Os efeitos visuais de Pantera Negra não são impressionantes, pois são feitos no computador e isso já está cansando, mas funcionam bem como pano de fundo para uma história sobre uma luta pelo trono que vai se tornando cada vez mais interessante que as próprias cenas de luta.

O ponto fraco é mesmo de Chadwick Boseman, que assim como sua contraparte amazona de Gal Gadot em Mulher Maravilha, não é um ator com desenvoltura o suficiente para segurar seu drama pessoal e ainda a responsabilidade sobre seu povo. Por outro lado, as participações femininas de Wakanda levam todo o mérito por acreditarmos na hierarquia deste mundo e seus diferentes papéis, embora o design de produção insista muito em “uma pessoa faz tudo”, o que torna os cenários pobres de detalhes. Olhe o laboratório da pequena irmã do protagonista para entender que tudo parece demais para uma pessoa apenas lidar; quero dizer, até Q possui uma equipe de cientistas por trás de suas invenções para o agente 007.

O uso de tecnologia ajuda o CGI a ornar melhor com os cenários, mas em contrapartida torna a experiência africana sem sabor, insípida demais. E tambores tocando o tempo todo não ajudam na organicidade. Soam apenas como mais um apelo pop para arrecadar bilheteria dos justiceiros sociais.

Wanderley Caloni, 2018-05-24. Black Panther. EUA, 2018. Escrito por Ryan Coogler e Joe Robert Cole baseados nos quadrinhos de Stan Lee (que faz uma ponta) e Jack Kirby. Dirigido por Ryan Coogler (que é negro, e isso é importante), este filme conta com a participação de um monte de negros, entre eles Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o. IMDB.