Para Minha Amada Morta

Um thriller psicológico brasileiro envolvente. A presença da possibilidade do mal é o que prende a atenção para o espectador, mas é apenas o pano de fundo de críticas interessantes sobre o cinismo e a hipocrisia da sociedade e da religião.

No começo temos um drama sobre a perda da pessoa amada e a lenta recuperação. Essa atmosfera se torna ideal para o baque que vem a seguir. A traição da mulher, gravada em vídeo, é mais dolorosa pela incapacidade de compreender, agora que ela se foi. O que resta a Fernando, o viúvo, é adentrar em um mundo psicótico, onde ele observa de perto a vida do ex-amante, junto de esposa e filhas.

O clima de tensão é estarrecedor. O diretor faz aqui com o engenheiro de som e trilha sonora uma macumba fabulosa com sua câmera, que se fecha para o mundo externo, revelando na obsessão do protagonista. Os enquadramentos do que pode ser o golpe fatal são infinitos, mas infinito mesmo se torna o ódio contido na observação impassível de Fernando.

O uso de elementos recorrentes, como a arma, as fitas de vídeo, as roupas, revelam algumas características desse discurso que talvez seja melhor deixar de lado, como um aparente lado anti-armas que pode se tornar ridículo com o tempo ou cultura diferentes. No entanto, note como nada que Fernando faz chega a ser agressão, e quando se torna, como a invasão à casa de seu senhorio, é pelo menos discutível.

Um filme para mentes fortes, com ideias poderosas.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-03-29 imdb