Paraíso

Jan 20, 2017

Imagens

Quando quiser ver um filme sobre o nazismo realmente forte, não esqueça de procurar por um diretor russo. E no caso de Andrey Konchalovskiy, seu “Paraíso” flerta duramente com “A Fita Branca”, um trabalho de Michael Haneke que, como de praxe, desafia o espectador a achar um pingo de esperança na humanidade (spoiler: você nunca acha). Infelizmente (ou felizmente) Konchalovskiy não vai tão além, e se rende a um água-com-açúcar em seu final (ainda que sutil). Porém, na sua maioria, é um trabalho denso, complexo, que abusa do ultrarrealismo aplicando na narrativa uma espécie de entrevistas pós-morte dos três personagens principais envolvidos diretamente no status quo da Europa (Rússia, França e Alemanha) naquele momento da história. Os três fornecem interpretações irrepreensíveis, ainda que a atriz que faz a princesa russa seja a mais complexa e multifacetada. O filme lida de maneira crua com o “eficientismo” da máquina de genocídio nazista, e pouco consegue se ver abaixo da camada social que todos estão vivendo. O pouco que vemos, no entando, deixa escapar um fio de esperança. Mas tudo é muito sutil. Não é um filme para corações fracos. Há cenas que flertam duramente com a existência de monstros no formato de homens. É preciso lembrar, contudo, a atmosfera das coisas naquele momento, onde qualquer tropeço poderia custar a vida dessas pessoas, seja do lado “certo” ou “errado” da solução final. Bem sutilmente, o roteiro de Elena Kiseleva e Konchalovskiy pincelam momentos-chave na estratégia nazista, e ao mesmo tempo estampam um rosto. O uso do p&n e da tela quase quadrada reforça a volta àquela época, além da emulação de defeitos no filme que parece mais distração do que algo legítimo, já que no resto do filme a fotografia é límpida, cristalina, o que nos remete a uma realidade aterrorizante (os filmes p&n têm disso; estranhamente parecem mais reais que os coloridos, pois a imaginação do espectador “preenche as lacunas”, enquanto geralmente cores em filme são estilizadas de acordo com o gosto do diretor). Por fim, Paraíso é quase um drama teatral, mas que pertence a uma produção dilacerante, atordoante, que junta gravações, fotos e vídeos da época com personagens em tempo real. Vá com o coração preparado.

Wanderley Caloni, 2017-01-20. Paraíso. Ray (Russia, 2016). Dirigido por Andrey Konchalovskiy. Escrito por Elena Kiseleva, Andrey Konchalovskiy. Com Yuliya Vysotskaya (Olga), Viktor Sukhorukov (Genrikh Gimmler), Peter Kurth (Krauze), Philippe Duquesne (Zhyul), Christian Clauss (Khelmut), Jean Denis Römer (Shulman), George Lenz, Jakob Diehl (Fogel), Irina Demidkina (Okhrannitsa tyurmy). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).