Paris, Te Amo

Wanderley Caloni, March 22, 2019

Este é um mega-projeto de cinema, com dezenas de diretores e roteiristas. Não há apenas o trabalho de compor os curtas, mas de juntá-los. Este é um filme com tantas visões diferentes que ele soa um pouco esquizofrênico. Mas como são todas visões mais ou menos alinhadas com o que a classe artista defende – o que geralmente quer dizer a mesma coisa – ele sobrevive ao pluralismo por causa da mesmice impregnada na mente de seus idealizadores.

E exatamente por conta dessa mesmice o projeto é sabotado. A ideia é mostrar diferentes visões do amor por Paris, essa cidade cosmopolita em que metade dos curtas falam inglês e a outra metade francês. Temos um cego, um não-falante, uma árabe, casais de idades diferentes, casais separados, casais brigando e casais se formando. A atitude com que o filme impõe Paris como o local onde todos esses eventos devem ocorrer é limitadora. É como se apenas em uma cidade como Paris tudo isso pudesse acontecer. Ao mesmo tempo, se considerarmos toda cidade grande como incubadora desses relacionamentos o filme está certo, pois relacionamentos em cidades pequenas nunca ganham tamanha diversificação cultural e histórica que vemos no filme.

Mas estou pintando a experiência de outra cor. Estamos falando de grandes nomes na direção mundial escrevendo pequenos ensaios sobre situações fictícias que dão apenas uma pincelada nesse enorme quadro. O filme já começa mostrando esse mosaico em pequenos retângulos onde se passa a ação, e vamos no decorrer da história preenchendo esses retângulos com os rápidos momentos que cada cineast dedica ao projeto. Algumas histórias são muito boas, a maioria é medíocre e esquecível. Você com certeza terá sua favorita, ou favoritas.

O importante aqui é perceber como diferentes estilos se unem em uma reunião improvável. Essa experiência por si só é mais interessante do que o tema Paris. Temos Irmãos Coen em um lado, Assayas de outro e Cuarón de outro. Uma mistura totalmente nova se forma na tela e isso nos faz pensar na imensidão de vozes cinematográficas que há no mundo atualmente. É uma sensação de mostra cultural, de festival de cinema. Mas um festival só frequentado por gente de primeira.

Então por que este não é um filme fora do comum? Bom, não se consegue isso com pinceladas tão breves. Como um filme único ele nunca funciona, pois vai pulando de história em história e mostrando personagens que não se conectam nem tematicamente nem narrativamente. A única conexão é que estamos em Paris. Esse é o laço. Sequer podemos chamar de romance, pois há quadros, como o de Walter Salles, que diz mais sobre amor e sociedade moderna. Já em Gus Van Sant temos algo mais experimental. Wes Craven nos entrega algo mais rotineiro e eficiente. Como conciliar tudo isso em torno de um longa-metragem?

Não há solução. É um filme bom de se ver, de vez em quando. Mas ele não trará nenhum traço de unidade. É como se estivesse colocando para tocar o DVD de curtas da Disney. E até isso ainda teria uma unidade: são curtas idealizados pela mesma equipe. Aqui a mistura é forte demais para fazer sentido. Curta com seu(sua) companheiro(a).

Imagens e créditos no IMDB. O texto de estreia será publicado no CinemAqui.
Paris, Te Amo ● Paris, je t'aime. França, Liechtenstein, Suécia, Alemanha, EUA, 2006. Dirigido por Olivier Assayas (segmento 'Quartier des Enfants Rouges'), Frédéric Auburtin (segmento 'Quartier Latin' - transitions'), Emmanuel Benbihy (transitions), Gurinder Chadha (segmento 'Quais de Seine'), Sylvain Chomet (segmento 'Tour Eiffel'), Ethan Coen (segmento 'Tuileries'), Joel Coen (segmento 'Tuileries'), Isabel Coixet (segmento 'Bastille'), Wes Craven (segmento 'Pere-Lachaise'), Alfonso Cuarón (segmento 'Parc Monceau') (as Alfonso Cuaron), Gérard Depardieu (segmento 'Quartier Latin'), Christopher Doyle (segmento 'Porte de Choisy'), Richard LaGravenese (segmento 'Pigalle'), Vincenzo Natali (segmento 'Quartier de la Madeleine'), Alexander Payne (segmento '14e arrondissement'), Bruno Podalydès (segmento 'Montmartre') (as Bruno Podalydes), Walter Salles (segmento 'Loin du 16e'), Oliver Schmitz (segmento 'Place des Fetes'), Nobuhiro Suwa (segmento 'Place des Victoires'), Daniela Thomas (segmento 'Loin du 16e'), Tom Tykwer (segmento 'Faubourg Saint-Denis'), Gus Van Sant (segmento 'Le Marais'). Escrito por Tristan Carné (ideia original), Emmanuel Benbihy (transições), Bruno Podalydès (segmento 'Montmartre'), Paul Mayeda Berges (segmento 'Quais de Seine'), Gurinder Chadha (segmento 'Quais de Seine'), Gus Van Sant (segmento 'Le Marais'), Joel Coen (segmento 'Tuileries'), Ethan Coen (segmento 'Tuileries'), Walter Salles (segmento 'Loin du 16e'), Daniela Thomas (segmento 'Loin du 16e'), Christopher Doyle (segmento 'Porte de Choisy'), Rain Li (in collaboration with) (segmento 'Porte de Choisy') (as Rain Kathy Li), Gabrielle Keng (in collaboration with) (segmento 'Porte de Choisy') (as Gabrielle Keng Peralta), Isabel Coixet (segmento 'Bastille'), Nobuhiro Suwa (segmento 'Place des Victoires'), Sylvain Chomet (segmento 'Tour Eiffel'), Alfonso Cuarón (segmento 'Parc Monceau') (as Alfonso Cuaron), Olivier Assayas (segmento 'Quartier des Enfants Rouges'), Oliver Schmitz (segmento 'Place des Fetes'), Richard LaGravenese (segmento 'Pigalle'), Vincenzo Natali (segmento 'Quartier de la Madeleine'), Wes Craven (segmento 'Pere-Lachaise'), Tom Tykwer (segmento 'Faubourg Saint-Denis'), Gena Rowlands (segmento 'Quartier Latin'), Alexander Payne (segmento '14e Arrondissement'), Nadine Eïd (segmento '14e arrondissement'), Frédéric Auburtin (transições), Jean-Pierre Ronssin (transições), Jane Hawksley (transições), Vincent Poymiro (transições), Paul Mayeda Berges (co-roteiro), Nadine Eïd (co-roteiro). ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Visto em cabine de imprensa pelo cinemaqui. Publicado em 2019-03-22. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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