Patema Inverted

Apr 19, 2015

Imagens

Esse é o primeiro filme que assisto com a premissa de pessoas que possuem a gravidade invertida. Sim, Mundos Opostos é de um ano antes, e apesar de não ter sido lançado no Brasil (alguém acredita que Patema será?) ele possui atores conhecidos e uma produção razoavelmente cara. No entanto, nunca se sabe quando alguém teve a ideia primeiro. E, hoje em dia, é quase certeza que ela veio dos livros ou qualquer outro formato que não o Cinema, onde as grandes empresas parecem ter desistido de arriscar em roteiros originais. No caso do Japão isso é ainda mais padronizado, pois o conteúdo ou vem de um mangá (revista em quadrinhos) ou anime (série de animação), e esse Patema foi distribuído via streaming um ano antes de ser montado como um filme.

A história é no mínimo curiosa: um experimento que deu errado matou vários humanos e destruiu toda uma cidade. No entanto, os sobreviventes conseguiram se fixar no “subsolo”, só que com a gravidade invertida. Ou seja, suas construções, e a orientação de seus corpos, obedecia exatamente o inverso dos humanos “originais”. Pelo menos isso é o que é ensinado na nova cidade, Aiga, onde Lei e Ordem é a moral que conduz seus habitantes, liderados pelo malvadão (porque sim) Izamura, que teme por um encontro com esses seres invertidos, ensinando que eles são pecadores e por isso foram consumidos pelos céus. Por isso até olhar para os céus é considerada uma contravenção grave. Algo que o jovem Age não liga tanto, pois foi filho de um explorador que uma vez criou uma espécie de balão para desvendar os mistérios dessa gravidade invertida.

Enquanto isso, no povo do subsolo, a princesa Patema cai acidentalmente em um dos poços abandonados, e acaba sendo salva por Age. A partir daí um fato curioso é exposto: mesmo vivendo no mesmo ambiente, Patema continua sendo afetada negativamente pela gravidade, e até o alimento que ingere lhe parece invertido. E esse é o limite para as explicações dessa história, que não exige (e nem precisa) de maiores detalhes pseudo-científicos. Se trata mais de uma fábula do que uma ficção-científica.

O que importa para o diretor Yasuhiro Yoshiura – e os roteiristas Marc Diraison e Yasuhiro Yoshiura – é mostrar como as crendices se solidificam em torno dos poderosos através do medo e da coesão, e impede que as pessoas enxerguem além dos seus horizontes: a sua zona de conforto. Como consequência, cria-se o conflito todo do filme, que é brindado por uma trilha sonora fascinante de Michiru Ohshima, embora muitas vezes usada de forma errada em cenas que estão sobrando e que tentam tornar emocionante o que já é naturalmente. A direção também ganha alguns créditos por conseguir não nos confundir na maior parte do tempo, e quando isso ocorre, está mais ou menos sob controle. É curioso, por exemplo, notar como a inversão da câmera ocorre em momentos pontuais no começo, mas logo depois é adotado o ponto de vista do povo “dominante” de cada ambiente, para situar o espectador de como é ser o diferente em cada lugar.

A experiência em geral não se torna confusa, talvez com exceção em sua sequência final, que, para variar, tem a conhecida lição de moral sobre não subestimar o que lhe parece diferente. Para isso mostra uma sequência de ação/drama um tanto vertiginosa, mas que por isso mesmo consegue demonstrar a confusão mental por trás daquelas pessoas que precisam conviver com o diferente e ao mesmo tempo entendê-lo. Também meio que escancara o absurdo de hoje em dia, onde pessoas acham difícil conviver com pessoas que possuem uma crença diferente da sua ou até mesmo uma orientação sexual não-padrão. Talvez se o filme puxasse um pouco mais para essa comparação pudéssemos chamá-lo de ambicioso. Como está, é uma animação divertida, original e com uma bela música de fundo.

Wanderley Caloni, 2015-04-19. Patema Inverted. Sakasama no Patema (Japan, 2013). Dirigido por Yasuhiro Yoshiura. Escrito por Marc Diraison, Yasuhiro Yoshiura. Com Yukiyo Fujii, Nobuhiko Okamoto, Shintarô Oohata, Shinya Fukumatsu, Masayuki Katô, Hiroki Yasumoto, Maaya Uchida, Takaya Hashi, Hideyuki Umezu. IMDB.