Patti Cake$

2017/11/18

RAP é Ritmo e Poesia. A música que emerge de repente dos esgotos e das bocas dos excluídos do sistema opressor. Que sistema é esse? Não importa. Sempre existirá um sistema e sempre existirão os excluídos. E é através de suas vidas insignificantes e sem sentido que emerge essa poesia, essa transformação da realidade, que mistura todas as emoções, músicas e estilos em uma composição bizarra que estranhamente se torna a expressão mais pura dessa própria realidade. Pura porque surge sem a maquiagem vendida pelo sistema. E que poderoso o paradoxo, quando uma música dessas se torna um sucesso e vende milhões…

Quando eu tinha quinze anos fui em um show dos Racionais MCs, que apresentariam alguns dos membros do Wu-Tang Clan, um grupo americano de hip hop hardcore. Estes são o O-Z da vida real, os ídolos, os que deram certo. Abaixo deles uma massa de aproveitadores e sonhadores. Seu sonho é poder um dia ser os adorados. Não é possível dizer quem é quem. Quem é o maior sofredor? Quem está apenas fingindo? Se tudo vira uma ode ao contraste entre o passado sofrido e o presente empoderador, todos nós somos merecedores de um prêmio por pertencer à raça humana.

O prêmio da vez é carregado pela voz e performance dramática de Danielle Macdonald, que faz aqui uma garota branca, loira, obesa e tímida. Patti é seu nome. Você também pode chamá-la de Killa P. E também de uma imensidão de apelidos que representam as diferentes facetas da artista. Incluindo Dumbo. Sim, esta é uma história dos becos, onde o politicamente correto nunca chegou perto. E nunca vai chegar. Regras educadas de convívio social nunca cobriram os que mais precisam. Eles são esmagados todos os dias. Patti tem que fazer bicos para sustentar sua mãe e o tratamento de sua avó, Nana (Cathy Moriarty, uma delícia). Em um deles ela serve buffets. O seu chefe fala que ela vai ter que ficar de pé de 8 a 12 horas. “Quem sabe assim você emagrece.”

O caminho para o estrelato também não é dos melhores. Patti e seu grupo da famigerada Nova Jérsei precisam tocar em uma boate de strip-tease. Eles inventam um hit: Coma Sutra. A melhor parte de “Patti Cake$” é uma lição aprendida na pele: não existem limites para os talentosos e dedicados.

Narrado em forma de vídeo-clipe (a melhor ideia do longa), o filme do estreante em longas Geremy Jasper possui músicas inspiradíssimas e inter-conectadas com o roteiro (as músicas são compostas por Jasper e o músico Jason Binnick) que são cantadas pelo próprio elenco de atores. A câmera na mão ligeiramente mais próxima do rosto dos personagens nos dá intimidade, realismo e imediatismo. As câmeras lentas em preto e branco ou cores estouradas e estilizadas nos dão a sensação de um sonho dentro de uma dura realidade.

E é através dessa “dura realidade” que surge essa pérola. Não é uma história real, mas ela se sente como se fosse. E é isso que importa. É quando a arte se torna maior que a vida que um quadro que representa toda a dor e violência da existência humana pode ser vendido por 2,4 milhões e ainda ser uma bagatela. Isso porque, independente do sistema, sempre existirá o paradoxo. E é o paradoxo que mantém a arte em movimento.

★★★★★ Patti Cake$. USA, 2017. Direction: Geremy Jasper. Script: Geremy Jasper. Cast: Danielle Macdonald (Patti). Bridget Everett (Barb). Siddharth Dhananjay (Jheri). Mamoudou Athie (Basterd). Cathy Moriarty (Nana). McCaul Lombardi (Danny). Patrick Brana (Slaz). Dylan Blue (Drewsky / Master of Ceremonies). Warren Bub (Mr. Bagadella). Edition: Brad Turner. Cinematography: Federico Cesca. Soundtrack: Jason Binnick. Geremy Jasper. Runtime: 109. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Drama. Release: 9 November 2017. Category: movies Tags: cabine

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