Pegando Fogo

Jan 14, 2016

Imagens

Pegando Fogo é um filme de sensações mistas. Em seu roteiro, é simplesinho e clichê. Em sua direção e, principalmente, sua edição, é ágil, dinâmico e tão fluido que quase é possível esquecer sua pouca força na história.

Bradley Cooper é Adam Jones, um chef de cozinha que se tornou notório em Paris há quase dez anos, estragou sua carreira com álcool, drogas e uma obsessão cega pela perfeição (e exclusividade), colecionou inimigo e se isolou em Nova Orleans para uma desintoxicação física e psicológica. O filme começa em seu retorno para a Europa, em Londres, onde pretende reunir uma equipe de sub-chefs baseado mais em critérios técnicos que emocionais, visando entregar para o restaurante do seu amigo o prêmio máximo de uma revista conceituada de críticos gastronômicos.

Essa é toda a premissa que leva John Wells, um produtor/escritor que de vez em quando dirige (Álbum de Família, A Grande Virada), e seu editor, Nick Moore (Uma Manhã Gloriosa , Simplesmente Amor, Um Lugar Chamado Notting Hill), a conquistar o público através de sequências apaixonantes sobre a arte de cozinhar e servir comida. A parte que mais seduz em Pegando Fogo é como a transição entre a cozinha e a ausência de feedbacks diretos dos seus clientes traz uma grande tensão justamente pela responsabilidade total de quem está no comando de fazer os pratos.

Cooper aqui faz seu feijão com arroz já visto em O Lado Bom da Vida, mas que mistura de maneira inteligente com sua performance mais tensa em Sniper Americano. A escolha de seu elenco é uma receita que mistura marketing com bons talentos, embora desperdice a maioria deles (Uma Thurman e Emma Thompson como um time de bastidores?), e transforme alguns mais importantes em clichês pouco interessantes, como a incógnita do personagem de Omar Sy (Intocáveis) e o resto do elenco que não dá para lembrar direito. As exceções ficam por conta de seu par romântico, a mãe solteira Helene, cuja dramaticidade na história Sienna Miller consegue elevar ao mesmo nível de Cooper, apesar do roteiro maniqueísta. Da mesma forma, Riccardo Scamarcio como o rival Max é certeiro em seu temperamento explosivo como o de Adam.

O que não se presta a ficar à altura de seus personagens é o roteiro de Steven Knight, construído em cima da história de Michael Kalesniko. Além de insistir em um joguete bobo envolvendo metáforas divinas, joga palavras nas bocas de seus personagens simplesmente para tornar a história mais palatável (com o perdão do trocadilho) para o público que entrou na sala esperando uma comédia romântica que não necessita de atenção para ser vista; os melhores momentos são surrupiados pela falta de tato de Knight, que revela conclusões óbvias sobre quando há chances dos clientes serem os tais críticos gastronômicos, ou o momento mais “vergonha alheia”, quando Max confessa a Adam que sabe que ele é um melhor cozinheiro, sendo que toda a performance de Scamarcio é justamente tornar isso óbvio sem necessariamente dizer isso verbalmente.

Ganhando pontos pelos detalhes – como quando Adam usa azeite para enfeitar um prato, mais de uma hora depois de projeção de quando ele aprendeu isso – e por não insistir muito no passado misterioso e turbulento do protagonista, apenas pincelando-o sutilmente, Pegando Fogo é um drama tenso que espreme um pouco de humor, mas quando faz isso costuma sair mais suor e lágrimas. Um ótimo passatempo com potencial de ser um pouco mais.

Wanderley Caloni, 2016-01-14. Pegando Fogo. Burnt (USA, 2015). Dirigido por John Wells. Escrito por Steven Knight, Michael Kalesniko. Com Bradley Cooper, Sienna Miller, Daniel Brühl, Riccardo Scamarcio, Omar Sy, Sam Keeley, Henry Goodman, Matthew Rhys, Stephen Campbell Moore. IMDB.