Pendular

O segundo longa ficcional de Júlia Murat (“Histórias que Só Existem Quando Lembradas”) é uma espécie de introspecção do artista, visto sob os olhares do público. Poderíamos esperar desse filme alguma história envolvendo o processo de criação, os devaneios e os esforços de seus criadores, ou até mesmo algo sobre a composição da personalidade das pessoas que fazem o pós-moderno existir. Porém, o projeto se boicota logo no começo. “Foda-se a coerência”, diz um dos artistas. Então tá. Junto dessa premissa o que segue não é sequer uma narrativa empolgante pela impetuosidade, pela selvageria ou até pela lógica dadaísta. O que vemos é simplesmente o nada acontecendo. Vidas normais correndo juntas. Um conflito ou outro. Possivelmente alguns símbolos pelo caminho, símbolos esses que ninguém se importa. Eu até inventei um: “pain” do lar. É a dor deles viverem nesse galpão perigoso e nojento. Está em uma mistura de inglês/português porque o casal principal parece que fala em idiomas diferentes. Apenas no sexo parecem se entender. É um filme longo que não conta a história de nada da melhor maneira possível, se é que isso é possível. O resultado é algo que não vai conseguir ficar na sua mente nem pelos primeiros cinco minutos após o final. Boa sorte em racionalizar a incoerência. É preciso muito exercício intelectual para criar-se uma obra relevante. Para Murat e seus personagens, aparentemente tudo isso não importa.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2017-09-18 imdb