Pequena Miss Sunshine

2017/01/22

Na época o que mais havia eram filmes independentes sobre famílias disfuncionais. Isso virou um sub-gênero que até hoje é a base de muitos trabalhos, autorais ou não. Porém, Pequena Miss Sunshine aproveita este tema para desenvolver uma crítica ácida e bem-humorada sobre a cultura norte-americana, que divide a sociedade em vencedores e perdedores. Este filme celebra o fracasso não como um ato subversivo, mas como uma forma de dizer que vencer pode ser alguma coisa na vida que não necessariamente ganhar um troféu.

A história gira em torno do personagem da ainda jovem Abigail Breslin, que foi indicada ao Oscar pela sua atuação natural de Olive, uma garota empolgada com os concursos de Miss e que ganha uma vaga em um concurso estadual. Isso exige a presença de todos em uma viagem dentro de uma kombi: o avô expulso do asilo, o pai vendedor de curso de auto-ajuda, o tio gay que acabou de tentar suicídio, e o irmão obcecado em largar aquela família disfuncional o mais rápido possível.

A primeira coisa que impressiona no filme é a maneira que o roteirista Michael Arndt faz para que tematicamente entendamos que aquela família é obrigada a permanecer junta, esquecendo todas suas diferença. O carro deles quebra, exibindo que para conseguir dar a partida todos empurrem o carro e entrem nele em movimento. Aqui entra os enquadramentos belíssimos da dupla de diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris, que não precisa muito dos diálogos de Arndt para explicar como aquelas figuras acabam sendo um microcosmos que exemplifica a vida em sociedade.

Porém, ainda assim, são os diálogos e as situações engendradas no filme que conseguem abrir espaço para atuações memoráveis de Paul Dano, Abigail Breslin, Toni Collette, Steve Carell (que mostra sua competência no drama) e Alan Arkin, que se despe de boa parte de sua persona para criar uma figura surreal e ainda assim completamente palpável: um velho que não dá a mínima para onde está, desde que esteja com sua heroína e sua liberdade. E, como um gesto para as próximas gerações, ensina secretamente a sua neta a se livrar das amarras opressivas das opiniões dos outros.

Há cenas memoráveis até hoje, como a do sorvete de chocolate e do daltonismo. São esses momentos que garantem o sucesso no tempo deste filme de mais de 10 anos atrás e que permanece intacto. Porém, ele merece ser assistido em sua totalidade, sem pausas, para que sintamos toda a tensão e o estresse da situação, para que se justifique cada medida desesperada da família.

(Ah, de quebra, surgem pontas de Bryan Cranston e Dean Norris, que serão cunhados na série Breaking Bad. É um passatempo para quem ainda não assistiu descobrir onde eles irão aparecer.)

Pequena Miss Sunshine não deixa de ser um filme indie sobre uma família disfuncional, mas faz isso carregando na bagagem um tema sensível à cultura americana, e o descontruindo aos poucos. Pode não ser tão sutil, pode não ser tão completo, mas é sucinto e visualmente arrebatador.

★★★★★ Título original: Little Miss Sunshine. País de origem: USA. Ano 2006. Direção: Jonathan Dayton. Valerie Faris. Roteiro: Michael Arndt. Elenco: Abigail Breslin (Olive Hoover). Greg Kinnear (Richard Hoover). Paul Dano (Dwayne). Alan Arkin (Grandpa Edwin Hoover). Toni Collette (Sheryl Hoover). Steve Carell (Frank Ginsberg). Marc Turtletaub (Doctor #1). Jill Talley (Cindy). Brenda Canela (Diner Waitress). Edição: Pamela Martin. Fotografia: Tim Suhrstedt. Trilha Sonora: Mychael Danna. DeVotchKa. Duração: 101. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Comedy. Tags: netflix dublado

Share on: Facebook | Twitter | Google