Perdido em Marte

Jan 15, 2016

Imagens

Esse é um filme para nerds e hackers no seu sentido mais puro. Ele envolve pessoas usando todo seu conhecimento para resolver um problema de vida ou morte. Como consequência, é um exemplo do que todo grande cientista faz ao longo de sua carreira, só que espremido em um filme de ação, drama e comédia de pouco mais de duas horas. Ele é intenso e realista; como sci-fi, encontra maneiras criativas de evitar muito tropeços científicos, e os que comete são pelo bem na narrativa.

Tudo começa em uma tempestade em marte, durante uma missão com humanos. Acreditando que o astronauta Mark Watney (Matt Damon) foi morto em um acidente durante a evacuação do planeta, a tripulação decide abandonar as chances de resgatá-lo. No entanto, Mark está vivo e passa bem, com o detalhe que agora ele possui um mês de suprimentos de sobrevivência, bem menos que os quatro anos de tempo para que uma nova missão tripulada fosse enviada e o salvasse. Matt Damon então mantém seus melhores momentos na primeira meia-hora do filme, mantendo seus registro em vídeo e explicando como decidiu não morrer e irá utilizar todos seu conhecimentos de botânica e ciência para sobreviver o tempo necessário para seu resgate.

Dirigido por Ridley Scott e escrito por Drew Goddard baseado no livro de Andy Weir, Perdido em Marte é um pequeno milagre do gênero. Ao apresentar tantos personagens diferentes interagindo em camadas que partem da mais básica sobrevivência humana (Mark) até os meandros da política internacional (NASA, China) o filme consegue estabelecer a tensão envolvendo pequenas decisões no grande conflito do filme: realizar um resgate de emergência em tempo recorde.

O mais impressionante, contudo, é que nada que acontece no filme é gratuito ou soa forçado. Partindo de sua premissa mais básica e desenvolvendo a história em torno disso, os acontecimentos mais trágicos no dia-a-dia de Mark poderiam muito bem ocorrer, e as decisões de mais alto escalão fazendo sentido do ponto de vista de uma organização que justamente por depender de dinheiro público, precisa ser justificado pela pressão pública. Do ponto de vista dos cientistas, é fascinante acompanhar seus esforços completamente intelectuais em resolver um dos maiores desafios apresentados pela humanidade desde então. Ou pelo menos o desafio com menor tempo para a resposta.

Apresentando-nos uma fotografia absolutamente deslumbrante, o trabalho de Dariusz Wolski (A Travessia) em conjunto com Ridley Scott consegue entregar cenários e transições poéticas do planeta vermelho, o que combinado com a edição de Pietro Scalia se torna um trabalho ambicioso e preciso, unindo tudo que acontece a 750 milhões de quilômetros dali com um dinamismo e uma fluidez exemplares.

Conseguindo entregar também um elenco de luxo estabelecendo cada um sua função à sua maneira, Perdido em Marte é um trabalho não apenas tecnicamente perfeito, mas humanamente evocativo. Não se trata de um filme-catástrofe que tenta salvar a Terra de um meteoro que irá atingi-la. É justamente o contrário: toda a humanidade e suas melhores cabeças trabalhando juntos para o resgate de um ser humano perdido em um planeta inóspito. Acho que desde Contato (Zemeckis, 1997) não me sentia tão extasiado pela capacidade humana.

Wanderley Caloni, 2016-01-15. Perdido em Marte. The Martian (USA, 2015). Dirigido por Ridley Scott. Escrito por Drew Goddard, Andy Weir. Com Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Sebastian Stan, Aksel Hennie. IMDB.