Pi

Pi é uma viagem quase psicodélica ao âmago da questão: a linguagem do Universo é a Matemática. Extrapolando isso, mas ao mesmo tempo mantendo o suspense de que isso poderia ser real, enxergamos a insanidade através das lentes P&B saturadas de uma luta interminável entre fé, conhecimento e a pura ganância.

Primeiro trabalho em longa-metragem do diretor Darren Aronofsky (O Lutador, Cisne Negro, Noé), a história gira em torno de Max Cohen (Sean Gullette), um matemático obcecado com sua teoria de que todo o Universo poderia ser descrito através de um padrão, e da mesma forma como grandes pensadores encontraram padrões existentes na natureza em abundância, como a espiral derivada da proporção áurea – a medida de um retângulo recursivamente gerado ao se tornar um quadrado –, ele acredita que encontrará um padrão que irá descrever as oscilações aparentemente caóticas da bolsa de valores, um universo próprio de mini-decisões humanas.

Tendo como companhia eventual uma vizinha aparentemente fascinada pelo rapaz, uma menina japonesa que adora ver como Max é tão rápido em fazer cálculos quanto uma calculadora, um rabino interessado em desvendar um aparente código secreto da Torá, e uma mulher, sua chefe?, que o contrata exatamente pela chance de poder dominar o jogo de Wall Street, Max frequentemente se isola na casa de seu ex-professor, Sol (Mark Margolis, o Tio Salamanca de Breaking Bad), uma mente igualmente brilhante que estava às voltas de entender a lógica interna do número Pi (3,1416…), mas que teve que paralisar seus esforços devido a um derrame, e que agora se contenta em jogar Go com seu aluno e alimentar seus peixes.

Com esse microcosmos de mentes interessadas de alguma forma no conteúdo do cérebro de Max, Aronofsky sabiamente emprega um artifício brilhante para representar a angústia que se passa dentro de sua mente: seu companheiro de todos os dias é um computador (batizado carinhosamente de Euclides), e muito do que acontece com a placa de silício pode ser uma visão externa do que se passa no cérebro de seu usuário. Um dia ele gera um pane e entrega uma sequência de duas dezenas de dígitos, algo que levanta suspeitas de Max de que ele pode estar diante do padrão tão desejado. No entanto, seus ataques alucinatórios levam também o espectador a crer que tudo isso pode ser uma grande ilusão.

Empregando um P&B enclausurante, o fotógrafo Matthew Libatique, junto do diretor, seu companheiro habitual, encontra uma maneira de visualmente expressar a lógica da narrativa: o caos, se reduzido ao máximo, irá entregar um padrão facilmente identificável, de onde se extrapola todas as regras do Universo. Tendo isso em mente, cada vez mais os traços do cenário e dos personagens vai se simplificando, tendo menos detalhes em volta, e mais preto no branco (ou vice-versa), demonstrando uma rima extremamente elegante com uma fala do professor de Max a respeito de como o Go, aquele joguinho de pedras pretas e brancas, representaria o próprio Universo.

Mantendo-se sempre fiel ao suspense entre a verdade e o ilusório, Pi é um trabalho ambicioso criado com muito pouco orçamento, o que o torna tão admirável quanto Primer (outro filme barato e ambicioso sobre ficção-científica). Um trabalho e tanto da estreia de um diretor que vai se acostumando cada vez mais a retratar a ambiguidade da vida no Cinema.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-06-26 imdb