Pica Pau: o Filme

Em todos esses anos dessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece. Nem os novos desenhos politicamente corretos do pica-pau de cabeça vermelha estragaram a magia. Mas este “Pica-Pau: A Animação de Computador da Década de 90” de fato consegue nos fazer renegar que esse passarinho biruta tem qualquer relação com os desenhos originais.

A pegada do filme é passarinho de computador que fala com a gente, tem momentos engraçadinhos sozinho em cena pra vender um conceito mercadológico e uma história requentada com todos os clichês possíveis sendo mal utilizados. Pais separados, filho abandonado, namorada mais jovem do pai (que é burra e fútil), especulação imobiliária, poder dos ricos sobre os pobres, dupla de capangas estilo um esperto e outro estúpido, festival na cidadezinha, banda de jovens e música pop. Nomeie qualquer um desses e mais alguns e ele estará no filme da pior maneira possível junto da comédia física necessária para Pica-Pau brilhar.

E o Pica-Pau apenas brilha porque todo o resto é muito, muito ruim. No original pode ser até melhorzinho, mas a dublagem brasileira está muito próximo do horrível aqui. Então a única coisa que dá um respiro no filme é ouvir suas frases idiotas resumindo a situação. O pessoal quer construir uma casa no meio da floresta em que ele vive, ele olha para a câmera e diz “vou ter que dar um jeito neles”. Daí ele sai voando e… dá um jeito neles. Ha ha ha.

A melhor piada, construída com tempo suficiente, são as inúmeras noites em que vemos o pai tentando dormir com o som de picadas do passarinho que nunca dorme. Note como o humor do pai se altera a cada novo momento. Essa é a única progressão minimamente interessante do filme inteiro. O resto é um bolo de previsibilidade que você já sabe onde vai dar.

Mas aparentemente apenas nós, espectadores, sabemos disso. Os roteiristas não. Eles não possuem a menor idéia de como fazer isso funcionar de maneira minimamente interessante. Durante o filme inteiro Pica-Pau não consegue ser capturado porque é muito esperto. A menos quando ele precisa ser capturado para dar andamento à história, e então magicamente ele é capturado. É dessa forma desinteressante que o filme desenvolve sua história, usando seus personagens quando eles são úteis, e descartando-os quando não se precisa mais deles.

Pica-Pau: O Filme sequer consegue ser um filme de abertura. Em certo momento de perigo ele exclama para a câmera: “acho que esse filme não vai ter continuação!” Eu mantenho essa exclamação e te digo, rapazinho: espero que você tenha razão.

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2017-11-06 imdb