Pieta

Finalmente, depois de ganhar prêmios na Europa e ser exibido apenas na Mostra do Rio do ano passado (em uma atitude claramente estúpida dos organizadores da Mostra SP), algumas distribuidoras nacionais resolveram estrear o novo trabalho de Kim Ki-duk. É impressionante como parece que a qualidade dos trabalhos lá fora é inversamente proporcional à pressa das distribuidoras brasileiras em fornecer conteúdo para o público local.

Kim Ki-duk é conhecido pelos seus filmes cheios de significado e símbolos, sobretudo nas cores que utiliza. Em Fôlego e “Primavera, Verão…” temos os momentos mais enigmáticos e controversos do diretor que adota projetos já polêmicos desde o roteiro (que geralmente também escreve).

Em Pieta a polêmica fica por conta de Gang-Do (Lee Jeong-jin), um cobrador de dívidas de um agiota que trabalha em uma região de trabalhadores de máquinas pesadas e que os obriga a “se aleijar” para através dinheiro do seguro que recebem conseguirem pagar pelos abusivos juros. No momento em que encontra sua suposta mãe (Jo Min-su) o seu estilo de vida fundado em uma violência praticamente primitiva (ele leva os animais que come ainda vivos) é questionado pelos seus primeiros sentimentos de afeição que procuram uma maneira nada convencional se expressar. O detalhe é que o seu modo violento de tratar as pessoas é usado como forma dos dois se aproximarem.

Esse choque de realidades é o ponto forte do primeiro ato, e a identificação pelas cores e sons é primordial para a nossa identificação do drama que se configura. Desde o primeiro momento em que se encontram, mãe e filho se vestem com as mesmas cores básicas. O verde, representando o dinheiro, deixa uma mensagem constante na rotina do rapaz. O vermelho, por outro lado, adquire o elemento misterioso, e é o que mantém o suspense da história. Já o som comenta as cenas de uma forma quase poética. O som de tapas secos ecoando pela rotina do rapaz não é gratuito, e Ki-duk encontra uma maneira cruel e criativa de mostrar o olhar horrorizado de uma mãe enquanto assiste seu filho ser esbofeteado.

É preciso prestar atenção do começo ao fim para capturar boa parte da mensagem que o diretor/roteirista pretende passar. Ele sabe brincar de pista e recompensa como ninguém, mas o que não quer dizer que seja uma história fácil. O impacto de algumas cenas conseguem desviar nossa atenção e os nossos pensamentos muito rapidamente.

Ao chegarmos no ponto de virada da história, igualmente impactante, a narrativa desvanece um pouco. Problemas na estrutura enfraquecem os acontecimentos logo após a nossa descoberta principal, mas enquanto tentamos captar o significado do que está na tela muita informação parece ser jogada na nossa frente apenas para que não percebamos os próximos movimentos. É uma pena que início e conclusão possuam um encaixe irregular, pois as qualidades da história até então parecem ter encontrado o seu ápice minutos antes do seu desfecho, indicando que estamos assistindo uma obra de quem sabe o que está fazendo.

Kim Ki-duk continua sendo um dos meus diretores favoritos. Por mais que às vezes peque na economia narrativa, um filme irregular dele é dezenas de vezes melhor que a média “do mercado”.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-03-19. Pieta. Pieta (South Korea, 2012). Dirigido por Ki-duk Kim. Escrito por Ki-duk Kim. Com Min-soo Jo, Jung-Jin Lee, Ki-Hong Woo, Eunjin Kang, Jae-ryong Cho, Myeong-ja Lee, Jun-seok Heo, Se-in Kwon, Mun-su Song. imdb