Pina

Wanderley Caloni, April 4, 2012

Nada como diretores como Wim Wenders e Martin Scorsese para resgatar a esperança do Cinema no 3D. Inicialmente usado para aumentar o rendimento das bilheterias e forçar o espectador a ir às salas ver algo que não poderia ver em sua própria casa, o 3D foi massacrado inúmeras vezes em seus primeiros anos, ou com brincadeiras adolescentes de jogar objetos na “cara” do espectador ou com as terríveis versões convertidas. Agora, aos poucos, diretores que conhecem Cinema em sua essência se arriscam a experimentar novos caminhos para a Sétima Arte, e quem ganha com isso obviamente somos nós, cinéfilos.

Aqui Wenders narra um documentário sobre a coreógrafa de dança moderna Pina Bausch usando para isso números protagonizados por alunos que aprenderam com ela o significado místico e essencial da dança. E aqui é preciso abrir um parênteses sobre o uso do 3D, que não é simplesmente parte itinerante do filme, mas praticamente um personagem e uma ferramenta de linguagem. Wenders entende isso e faz de tudo para que isso seja visível para o espectador, além da óbvia experiência de usar os óculos 3D.

Podemos notar isso desde o início ao perceber que, diferente de outros projetos que usam a tecnologia, o desfoco não é usado, de maneira que podemos olhar para qualquer parte a qualquer momento. Para chamar nossa atenção, a decupagem aplica porcentagens de quanto cada personagem/objeto ocupa na tela em vez de desfocar todo o resto. Isso permite, por exemplo, que olhemos para qualquer participante de uma fila indiana de dançarinos, tema recorrente ao longo do filme. O uso de ângulos não-retos nos ambientes, aliado com uma profundidade de campo evidenciada pelos elementos em cena em diferentes distâncias da tela ajuda o espectador a ter uma imersão que não seria possível sem um preparo tão experiente de cada cenário. Dessa forma, ao colocar uma mulher ao fundo, de vermelho, carregando uma árvore, Wenders está nos mostrando os limites de sua construção da cena. E, obviamente, da mesma forma, quando brinca com metalinguagem ao perceber que uma largura de campo maior no 3D dá a impressão dos objetos assumirem as características de uma maquete, o filme brinca com esse “defeito” de uma maneira brilhante, ajudando mais ainda em nossa imersão naquele mundo novo.

Indo mais além do que na arte da decupagem, ou seja, dar formas tridimensionais às cenas, o filme brinca com metalinguagem de uma maneira sutil mas efetiva. Note, por exemplo, como existem momentos em que um projetor exibe as mesmas danças vistas em uma parede 2D para um “público” – ou seja, pertencente ao filme – em 3D. Quando as danças voltam com uma terceira dimensão, possuem uma energia tão forte na transição que é como se fosse sugerida uma troca de papéis com o público real – nós, no cinema – para que virássemos o 2D de outrora: o ambiente multidimensional do filme, tão forte em sua mensagem corporal, toma as rédeas da realidade, mesmo com seu aspecto onírico.

Apesar de haver talvez um abuso aqui e ali envolvendo um trem suspenso e não haver uma narrativa clara da história, esse espírito de experimentar com o 3D caminha junto com a própria dança de Pina, focada mais na alma e na individualidade. Não existem caminhos errados, mas apenas a descoberta de cada um. Dentro dessa ótica, faz todo o sentido um filme que envolva os dois – Dança e Cinema – de maneira indissociável. Sem a tecnologia 3D, esse filme não existiria. E nem deveria. Wenders sabe o que está fazendo, assim como Scorsese. Hugo e Pina são a única coisa hoje em dia que dá esperanças ao 3D de se aliar ao Cinema como arte.

Imagens e créditos no IMDB.
Pina ● Pina. Pina (Germany, 2011). Dirigido por Wim Wenders. Escrito por Wim Wenders. Com Regina Advento, Malou Airaudo, Ruth Amarante, Jorge Puerta, Pina Bausch, Rainer Behr, Andrey Berezin, Damiano Ottavio Bigi, Bénédicte Billet. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2012-04-04. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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