Plano 9 do Espaço Sideral

É este o “pior filme de todos os tempos”, como foi votado no livro do crítico Michael Medved? É óbvio que não. Qualquer lista sobre qualquer coisa sobre Cinema está fadada a 1) estar incompleta e 2) estar errada. Dessa forma, nunca poderemos falar do melhor ou do pior sem nos esquecermos que ninguém nunca viu todos os filmes do mundo, e portanto sempre haverá piores filmes que nunca foram vistos. Além do que, se você lembrar do item 2, uma lista de melhores/piores sempre estará errada, pois esta é uma visão muito mais próxima do gosto pessoal do que uma crítica bem embasada nas “características” de um trabalho como esse.

E no caso de “Plan 9”, antes chamado “Assaltantes de Tumba” ou algo do gênero, há uma lista de virtudes que foram maturadas com o tempo. Seu título, por exemplo, mudou depois da pequena estreia para refletir a incapacidade de seres extraterrestres exterminarem a raça humana em 8 tentativas – muitas delas frustradas porque o exército não os deixava aterrissar – e esta ser a nona: ressuscitar cadáveres humanos para que eles ataquem os humanos.

O filme inicia por um enterro onde a esposa de um velho é enterrada e o velho morre logo em seguida e ambos ressuscitam a partir do plano dos aliens. Ah, e por um narrador excessivamente verborrágico e insistentemente chato. A esposa que surge dos mortos é Vampira, ou a “atriz” Maila Elizabeth Syrjäniemi, que além do físico aparentemente impossível apresentava um programa televisivo de filmes de horror (houve um filme, Elvira, que mais ou menos a homenageava). E seu marido, um dos vampiros do Cinema, Bela Lugosi, que morreu antes do filme terminar e que participou com imagens de arquivo (em frente a uma casa), e onde no resto do filme é interpretado por outro ator que cobre seu rosto com a capa. Sim, esse é o nível de produção do diretor Edward D. Wood Jr.

Ed Wood começou a carreira fazendo diversos terrores de baixo orçamento, passando então nas próximas décadas a fazer “exploitation” para se sustentar. Ele amava o Cinema, como amava se vestir de mulher (sim), mas não tinha a habilidade necessária. Conhecemos várias figuras hoje em dia rendendo milhões nas bilheterias. A história de Ed é mais dramática e sem final feliz. Eu recomendo a cinebiografia de Tim Burton, Ed Wood, onde após assistir e revisitar “Plan 9”, acredite, ele ficará infinitamente melhor. De qualquer forma, Wood, votado injustamente como o “pior diretor de todos os tempos”, criou cerca de 80 roteiros e filmes e fazia o seu melhor.

Tudo isso não quer dizer Plan 9 esteja livre de erros. Muito pelo contrário: os erros dão ritmo ao filme. Em cada cena, em cada diálogo, o espectador para e pensa: “eu estou realmente assistindo um filme, e não um episódio de Chaves?”. Alguma coisa na atmosfera do filme nos faz desacreditar dele a cada momento. Talvez quando o dia vira noite e vice-versa de uma cena para outra, ou quando a cabine de um avião comercial abre por uma cortina idêntica à da nave alienígena (um toque sutil). Ou talvez quando imagens de guerra são mescladas com um coronel/tenente dando ordens para explodir diversos mísseis em discos voadores sobrevoando um campo, ou, finalmente, quando vemos fiozinhos acima dos tais discos voadores.

Por tudo isso, e muito mais, Plan 9 merece levar créditos não pelo seu diretor, nem pela seu péssimo elenco, mas como obra de arte, ao sobreviver a tantos golpes duros que lhe foram desferidos e mesmo assim ele se mantém como mágica. Parece que o espectador ajuda muito mais certos filmes a se tornarem filmes do que seus próprios idealizadores, assim como é o nosso cérebro que processa a passagens dos quadros para dar a impressão de movimento. Plan 9 é um ótimo exemplo de uma série de cenas sem sentido que nosso cérebro capta para tentar fazer sentido. Se é bem sucedido ou não, talvez dependa do cérebro de cada um.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-09-23. Plano 9 do Espaço Sideral. Plan 9 from Outer Space (USA, 1959). Dirigido por Edward D. Wood Jr.. Escrito por Edward D. Wood Jr. Com Gregory Walcott, Mona McKinnon, Duke Moore, Tom Keene, Carl Anthony, Paul Marco, Tor Johnson, Dudley Manlove, Joanna Lee. imdb