Planeta dos Macacos A Origem

Wanderley Caloni, August 31, 2011

Esse texto não é indicado para os que já viram algum filme da série Planeta dos Macacos, iniciada em 68. (Na verdade, nem o atual de 2011: leia depois de assistir.)

Escrito pela dupla Rick Jaffa e Amanda Silver (que aqui também são produtores), o filme procura explicar o que ocorreu com o mundo em que Charlton Heston pousou no filme de 68, trazendo necessariamente à tona que o planeta onde os símios caçam os humanos é a própria Terra. É significativo, então, que o filme comece justamente mostrando chimpanzés sendo caçados por humanos para serem levados a um laboratório e servirem de cobaias para experimentos científicos onde os testes em humanos seriam muito perigosos. Mais do que isso: ao retratar essa realidade sob a ótica dos macacos, o filme de imediato toma o partidos destes, o que não é difícil de perceber ao notarmos a forma com que os animais são objetificados em prol da “ciência” e tornam-se, assim, um meio barato de possibilitar o avanço nas pesquisas e otimizar, assim, o retorno financeiro da instituição que deles se apropia.

É empolgante também perceber que a produção faz de tudo para nos apresentar uma explicação coerente para o que veremos em um futuro não tão distante. Mais ainda: ao saber como tudo termina, faz sentido que o foco da história se localize justamente na evolução da hegemonia símia, e para isso, como macaco não fala, o aspecto visual da produção se estabelece acima dos diálogos.

O que é facilmente permitido nos dias de hoje graças à tecnologia e os famosos detectores de movimento e expressão. Esses mesmos sensores que criaram o Gollum de O Senhor dos Anéis e King Kong através da interpretação de Andy Serkis, agora dão vida pelo mesmo Serkis a César, um macaco nascido de uma das cobaias do centro de pesquisas e que foi submetida a drogas que a permitiram aumentar exponencialmente seu grau de cognição cerebral, a tornando muito mais inteligente que um chimpanzé normalmente seria. César, que já estava em gestação na barriga de sua mãe, acabou herdando as mesmas características induzidas por essa droga, e, dessa forma, já temos de bandeja as explicações de como 1) a droga foi aplicada a um recém-nascido, o que permitiu que ele crescesse já com essas capacidades, e 2) como essa nova capacidade cognitiva será passada para seus descendentes, permitindo que macacos continuem sua “evolução acidental” por gerações a fio.

Fora a capacidade de conseguirmos ver os macacos se comunicando através de expressões e gestos dezenas de vezes melhor que os macacos do filme original, a computação gráfica ainda permite que acompanhemos seus movimentos mais ousados, que surgem livres e fluidos, como César se divertindo no quarto criado para ele (e que conta com diversas inversões de ângulo em apenas uma sequência) ou uma belíssima transição que avança no tempo em que ele sobe na árvore mais alta de uma floresta para observar a paisagem.

Porém, tudo isso seria inútil se não conseguíssemos acompanhar uma narrativa convincente, o que acaba existindo na forma mais convencional possível. O que realmente impressiona durante toda a projeção são mesmo as interações entre os macacos e as invencionices do roteiro para que todos os detalhes cubram os acontecimentos futuros. A veneração ao original, aliás, é considerável, a ponto de serem inseridas inúmeras homenagens no decorrer da história, como o nome de uma certa macaca ou a alusão à Estátua da Liberdade (além de mais uma ou duas em particular, incluindo uma fala famosa, que irão fazer os antigos fãs vibrarem de emoção).

Infelizmente, por falta de confiança no espectador, os diferentes símios que contracenam no filme não possuem apenas diferenças significativas em suas personalidades, mas também fisicamente, o que soa um certo exagero, ainda mais se considerarmos que os símios “genéricos”, os que não possuem “diálogos” com César, são idênticos a ele. Por outro lado, a construção dos detalhes paralelos são sutis e inteligentemente inseridos na trama (como a forma da doença entre os humanos ser espalhada e, algo que me havia escapado quando assisti, a primeira viagem tripulada a Marte, obrigado ao meu amigo Antônio Maciel).

Contudo, mesmo que a trama não seja o ponto forte, o filme ganha um impulso extra ao explorar seu lado filosófico, quando, por exemplo, César consegue fazer valer sua inteligência em detrimento à força e ao prestígio dos símios dominantes no grupo em que é obrigado a conviver, o que, de forma irônica, acaba nos remetendo à nossa própria evolução, o que nos faz pensar: quem somos nós para subjugar espécies que consideramos inferiores, se nós mesmos estamos à mercê muitas vezes de nossos próprios caprichos instintivos e de moral duvidosa? Qual aspecto da sociedade moderna nos torna especiais em relação a uma sociedade de qualquer outra espécie?

São questões que o filme nunca enfoca, e também nunca tenta solucionar. Mas, só pelo fato de nos submeter à essa reflexão em suas entrelinhas, já ganha uma posição de destaque no Cinema Pensante desse novo século.

Imagens e créditos no IMDB.
Planeta dos Macacos A Origem ● Planeta dos Macacos A Origem. Rise of the Planet of the Apes (USA, 2011). Dirigido por Rupert Wyatt. Escrito por Rick Jaffa, Amanda Silver, Pierre Boulle. Com Andy Serkis, Karin Konoval, Terry Notary, Richard Ridings, Christopher Gordon, Devyn Dalton, Jay Caputo, James Franco, Freida Pinto. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-08-31. Revisto em 2016. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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