Planeta Terror

Quando se fala em fazer um filme trash, o diretor Robert Rodriguez não brinca em serviço. Planeta Terror, o filme-parceiro do projeto grindhouse criado por ele e Tarantino – em que cada um realiza um filme com essa proposta de filme antigo Lado B – é um exemplo de filme ruim que é ruim por ambos os motivos: o real e o imaginado. Porém, para realizar este feito ele precisa percorrer o destino de diferentes personagens que se tornam marcantes por dois motivos: as ótimas atuações dos atores que o interpretam e o velho jeito Robert Rodriguez de criar momentos icônicos, ainda que desprovidos de senso estético.

Começando sua história com gases venenosos traficando entre gangues e que caem nas mãos do exército comandado por Bruce Willis, logo os zumbis começam a aparecer em uma cidade do Texas, ameaçando uma infestação e enchendo os hospitais e revelando aos poucos os heróis que irão sobreviver a esta “terrível noite de quarta-feira”. Entre eles temos o jovem e “misterioso” Wray (Freddy Rodríguez), o perigoso Dr. William Block (Josh Brolin), o orgulho churrasqueiro texano J. T. (Jeff Fahey), o sisudo xerife Hague (Michael Biehn), a emancipada Dra. Dakota Block (Marley Shelton) e, encabeçando o projeto, a go-go-dancer Cherry Darling (Rose McGowan, que também participa de À Prova de Morte, o filme de Tarantino do projeto).

O filme inteiro é uma tremenda excursão por essa loucura crescente a um ritmo lento. Vemos cabeças sendo cortadas, intestinos sendo devorados, braços e pernas arrancados e tudo mais o que você conseguir imaginar de gore e pertencente ao “universo” de Rodriguez. Nem crianças ou cachorros serão poupados. Não há indícios de quem será morto em seguida, o que é uma coisa boa, mas também não há indícios de onde a história vai, ou por que ela demora tanto para se desenvolver, o que é um ponto de interrogação durante toda a narrativa (até porque já sabemos o final da história: está no título).

Rodriguez também possui uma visão bem peculiar sobre o “empoderamento” da mulher aqui (diferente de Sin City), pois talvez seja o único com a proposta de colocar uma metralhadora multi-função no toco da perna da heroína. Ainda assim, quando isso acontece, talvez seja o melhor momento do longa, pois indica que existe algum ser humano semi-complexo aguardando para sair da lista interminável de estereótipos. Pronto para usar suas “habilidades inúteis” para algo funcional, tal qual nosso amigo diretor.

O filme também possui uma visão bem peculiar a respeito do próprio grindhouse, pois se inicialmente esperava-se um “exploitation” maior, ficamos com a dança de apresentação introdutória e uma cena de sexo cortada no meio pelo “filme ter sumido”. Não muito se observarmos com cuidado as bundas das lindas moças de À Prova de Morte, o projeto de Tarantino na brincadeira, assim como a famosa lap dance da voluptuosa Vanessa Ferlito. Além do mais, as brincadeiras em torno de filmes Lado B com defeitos de desgaste continua por todo o tempo, e apesar da fotografia pálida e com muita sombra funcionar, o estilo Photoshop de incluir linhas de falha é batida e se torna uma distração sem função alguma.

Como de costume, com uma trilha sonora que não nega o bom gosto do cineasta em obras do gênero – além de suas raízes latinas, pois apesar de ser texano, sua família veio do México – somos brindados com o gore com ritmo, mas sem alma. Rodriguez mostra que não aprendeu nada desde El Mariachi, Um Drink no Inferno ou A Balada do Pistoleiro. Por outro lado, não desaprendeu muito. Continua misturando sua aficção por projetos infantis (é o diretor da franquia Pequenos Espiões) com sua sede de sangue e tripas. E enquanto a música não parar, tudo bem se não sabemos como se faz para apertar o gatilho de suas armas colocadas em lugares “não-convencionais”.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-09-27 imdb