Pokemon: Detetive Pikachu

Wanderley Caloni, May 25, 2019

É bom que você se certifique que é realmente fã de pokemon antes de entrar na sala de cinema. Eu fui assistir em um local cheia de fãs da nova geração, desses que assistem comentando vários easter eggs do filme, detalhes irrelevantes e o gosto da pipoca (tudo isso ao vivo ou pelo celular) e posso dizer que toda a trama de “Detetive Pikachu” merece exatamente esse nível de atenção. Você pode ler abaixo meu resumo em um ou dois tweets e relaxar para fazer o que quiser durante todo o resto da sessão. Vamos lá:

“Clássica história de erro de comunicação entre pai e filho carente. Reviravoltas infinitas até achar o gênio do mal. Resolução sem riscos para os heróis. Pokemons de montão. Fim.”

Não estou tão interessado assim em descrever melhor toda a complexa trama porque me cansa só de pensar em como ela é previsível, a começar do momento em que um personagem poderoso é apresentado e você já pode intuir todo o resto, tanto a reviravolta inicial quanto a final, mas posso resumir de outra forma: envolve você revisitar um acidente de automóvel várias vezes com uma nova reinterpretação do que não foi visto porque o diretor não quis nos mostrar.

Mas essa é uma história de detetive, ou assim foi vendida, e por isso esse formato, como se histórias de detetive precisassem apenas de reviravoltas para serem boas. Também dizem que o filme tem um aspecto noir. Propaganda enganosa. Apenas em duas cenas com menos de 30 segundos nos deparamos com uma cidade noturna, luzes de neon e pokemons andando por becos escuros. O resto é digital, gráfico, inofensivo. Efeitos bem feitos que rodeiam personagens infanto-juvenis desinteressantes. Não nos importa o destino do pai de Tim, um garoto que recebe a morte do pai com menos drama do que se tivesse perdido seu parceiro pokemon. E isso da boca de Ken Watanabe, que desperdiça seu talento neste filme só para desencargo de haver pelo menos um personagem importante oriental em um filme sobre pokemons.

Mas voltando a essas criaturas: a história ocorre em um universo onde eles existem e convivem com humanos como se fossem animais como outros quaisquer, embora tenham algum nível de consciência e comunicação que a maioria dos humanos prefira ignorar. A analogia ecológica é clara e pedestre, assim como a piada sobre aquecimento global. Há um quê de Zootopia em um momento em que somos apresentados a Whatever City, onde humanos e pokemons vivem em harmonia sem um colocar o outro dentro de pokebolas (não é explicado como isso funciona), mas essa é uma ideia passageira que não é explorada, assim como todas as ideias do filme.

O único objetivo aparente de todo o filme é fazer aparecer em digital todos os pokemons que os fãs gostariam de ver representados. E eles estão ótimos, demonstrando como a computação e os artistas digitais cada vez mais realizam pequenos milagres na grande telona. Agora seguiria uma lista dos pokemons que aparecem no filme se eu me interessasse por isso, mas você acha essa informação fácil na internet. Afinal, esse é o objetivo do filme. Um comercial gigante da Nintendo para que você continue jogando Pokemon Go e consumindo a franquia.

Continuando a falar em pokemons (porque é sobre isso o filme), eu nunca entendi muito bem o objetivo que a indústria tenta passar sobre os tais bichinhos diferentões. Eu sei que seu criador colecionava insetos e teve essa ótima ideia de um jogo ou uma história onde humanos caçam esses bichos. Também sei que toda a história ensina o conceito de evolução de forma errada. Porém, tirando a já citada mensagem ecológica (“a diversidade é algo poderoso”), não há mais nada que foi desenvolvido nesse universo que mereça ser citado, exceto as batalhas entre eles.

Mas aqui as lutas entre pokemonn, ou rinhas de galos para crianças, não ocorrem. Este é um filme censura livre e politicamente correto que abomina violência, o que quer dizer que toda agressão vista no filme existe apenas para as pessoas sairem voando de um lugar a outro e caindo como se fossem de borracha. Toda a aventura é inofensiva, o que torna a experiência, mais uma vez, uma revisita aos seus pokemons favoritos. Seria melhor vê-los no YouTube no site do pokemon. Não é preciso refilmar uma história batida se pokemons não a tornarão mais interessante.

Além disso, depois de A Vigilante do Amanhã, live-action de O Fantasma do Futuro (Ghost in The Shell), este é mais um filme norte-americano retratando personagens asiáticos. Não acredito que haja muitas minorias mais insignificativas no Ocidente do que japoneses, mas por algum motivo no Cinema tem baixado uma crise de consciência afrodescendente com toques de Netflix, e por isso o protagonista é um garoto negro, constituindo esse um raro espécime de blackwashing em yellow faces. E ele ser negro, diferente do espetacular Aranhaverso, não tem qualquer diferença para o personagem.

De qualquer forma, estou pensando demais um filme que não merece muita atenção. É possível dormir em dois ou três momentos em Detetive Pikachu e você não perde nada. Aproveite também para ir ao banheiro ou pegar mais pipoca. Ah, sim, tem o Pikachu com a narração de Ryan Reynolds. Bom, teria, já que no Brasil a maioria das cópias é dublada de maneria pedestre, e a voz do Pikachu não faz a mínima diferença. Se trata da voz de um adulto contando piadas que não funcionam, pois Pikachu não pode sequer protagonizar cenas em que ele deixa de ser fofinho. Tudo pela marca. Uma marca que eu não sou nem um pouco fã, nem acompanho, mas que certamente já deu no saco. E você pode censurar essa frase na sua cabeça se preferir conteúdo livre. Eis o seu noir sem riscos.

Imagens e créditos no IMDB.
Pokemon: Detetive Pikachu ● Pokemon Detective Pikachu. EUA, Japão, Canadá, 2019. Dirigido por Rob Letterman. Roteiro por Dan Hernandez, Benji Samit, Rob Letterman, Derek Connolly, estória de Dan Hernandez, Benji Samit, Nicole Perlman, baseado na criação de Satoshi Tajiri, Ken Sugimori, Junichi Masuda, personagens de Atsuko Nishida e estória original de Tomokazu Ohara, Haruka Utsui. Tudo isso para fazer uma bosta de história. Com Ryan Reynolds que aparece primeiro nos créditos mas tem apenas 10 segundos em tela (o resto é dublagem que você provavemente não assistirá nos cinemas brasileiros), Justice Smith, Kathryn Newton. E... Ken Watanabe? O que você tá fazendo aqui? ● Nota: 2/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-25. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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