Por Dentro Do Roteiro, de Tom Stempel

Jul 15, 2018

O livro de Tom Stempel, acadêmico e crítico cinematográfico, parece ter sido feito com um olho nos negócios e outro no entretenimento. Isso porque para Stempel o importante em um roteiro não é seguir uma estrutura estética agradável, nem mover a história em uma trama que te prenda, mas fazer os personagens serem tão reais que você os seguirá para onde quer que seja. Mesmo em um blockbuster.

Isso é porque para ele Titanic, de James Cameron, não é um exemplo a ser seguido porque é, perdoe o trocadilho, superficial, ou os Episódios I, II e III da saga Star Wars são exemplos de roteiros ruins simplesmente porque não são escritos para convencer ninguém, mas apenas bater cartão no universo de George Lucas.

Ágil e acompanhando a história conforme ele vai descrevendo, o objetivo do autor não é ditar estruturas de sucesso como Syd Field, mas fazer o leitor pensar sobre a estrutura de uma história que está sendo assistida e como isso se encaixa na indústria de entretenimento. Quando ele comenta, por exemplo, que o roteirista precisa dar abertura para que os atores atuem, ou que existam momentos de abrir os olhos com efeitos visuais, ele está sendo pragmático ao mesmo tempo que tenta ser academicamente correto a respeito da profissão de escritor para o Cinema.

Por outro lado, ele é fã incondicional de Lawrence da Arábia porque o roteiro deste épico é formidável do começo ao fim do ponto de vista da estrutura de seu personagem. Ele usa as diferentes versões do roteiro e o projeto atribulado de adaptação das memórias de T.E. Lawrence para a telona para explorar a fabricação de um filme e como o roteiro se modifica conforme a dança. A primeira parte do livro geralmente dá bons exemplos de como o roteirista já em profissão pode trabalhar junto de uma equipe multidisciplinar e ainda se manter. E é assim que nascem os roteiros aclamados.

A parte do meio já comenta sobre aqueles trabalhos medíocres balanceando o que os autores fazem de certo e o que fazem de errado, e uma análise acelerada de vários filmes que poderiam ser melhor. Mas o que importa para Stempel não é apontar o quê, mas perguntar para o leitor: como você faria diferentes nesta parte? Sua análise sobre Tróia é uma das melhores do capítulo e do livro.

Já o final do livro deixa um gosto amargo na boca por tratar dos filmes que, segundo ele, possuem mais erros que acertos. E ele aponta no projeto porque eles não possuem a habilidade que um roteirista deveria ter em seu trabalho. Ele pega no pé particularmente de George Lucas e James Cameron, mas não faltam exemplos de trabalhos preguiçosos e que são criados pela inércia.

Bônus: questionário para o aspirante a roteirista usar quando for criar algo.

  • Onde o filme começa?
  • No presente?
  • No presente, pulando para o passado?
  • No passado, saltando para o presente?
  • Como os personagens são estabelecidos?
  • Mostrando?
  • O que eles fazem. O que nós vemos. Contando?
  • O que eles dizem. O que escutamos a respeito deles. O que outras pessoas dizem a eles. Os personagens são adequados para o filme?
  • A história é adequada para os personagens?
  • O que o roteirista está nos contando ou mostrando?
  • Ou não nos contando?
  • Por quê?
  • Como o filme está se movimentando?
  • A história está se desenvolvendo?
  • Os personagens estão se desenvolvendo?
  • Os personagens estão se comportando de maneira tola?
  • Por quê?
  • Precisamos saber isso?
  • O roteirista segue o padrão de Syd Field ou o de Joseph Campbell muito rigidamente?
  • O filme está se afastando daquilo de que trata?
  • Ele está roubando dos melhores?
  • Sobre o final: Ele conclui a história que o filme começou a contar?
  • Satisfaz o espectador?
  • Demora muito?
  • O filme cumpre o que prometeu?
  • O filme é sobre o quê?
Wanderley Caloni, 2018-07-15. Por dentro do roteiro: Erros e acertos em Janela indiscreta, Guerra nas estrelas e outros clássicos do cinema. Escrito por Tom Stempel.