Porto

Um romance pode terminar em algo bom ou algo ruim, mas ele sempre será um romance. A montagem de Porto também nos mostra que pedaços de informação não são a mesma coisa que a coisa em si, que pertence apenas aos que viveram o momento. Contando a história de um breve romance de suas problemáticas pessoas, o roteiro do diretor estreante Gabe Kleeman atravessa a questão do final feliz problematizando tanto a questão do ponto de vista quanto a causalidade do mundo que nos leva a concluir um sentido para as histórias a partir do seu final. O que acontece, então, quando enxergamos a série de eventos que fazem parte da vida de duas pessoas sob uma outra ordem?

Da mesma forma, a história pode ser vista através dos pontos de vista, individual ou coletivo. Este filme está dividido em três partes, pois parte de três pontos de vista: ele, ela, os dois.

Isso o torna um pouco burocrático, o que é curioso, pois do aparente caos surge uma ordem previsível e um pouco enfadonha. Para remexer um pouco os conceitos o diretor D utiliza dois formatos de filme: um estreito e um comprido, quase o dobro (se não o dobro) do primeiro. Quando vemos um dos dois sozinhos, apenas enxergamos pela película apertada. Quando os dois estão juntos, o horizonte fica mais amplo.

E o que dizer da trilha sonora minimalista, mas apaixonante, que a partir de um solo de piano nos faz viajar no microcosmos deste casal instantâneo, que surgiu de escavações arqueológicas em um achado inesperado? “eu não costumo fazer isso”, diz ela. Faz sentido, pois esta pequena janela da realidade dos dois parece única, especial e… feliz. Sim, há felicidade em um clima melancólico. A personagem de Lucie Lucas, Mati, é melancólica em seu núcleo, e mesmo tendo um lindo sorriso, seus lindos olhos negros parecem tornar transparente o fato de que este não é um filme de final feliz.

Boa parte dela está misturada com uma fotografia que usa grãos grandes, tornando o filme mais… artístico. Talvez um pouco mais que isso, já que a pequena grande cidade do Porto, em Portugal, faz algumas “pontas” charmosas. Além disso, o uso de uma câmera trêmula de aspecto caseiro torna tudo familiar, e por mais estranho que seja aos nossos olhos ver um romance estilizado dessa forma, o filme também repete muitos dos seus quadros para fixar a imaginação do espectador em torno do acontecimento principal. Mas voltando à câmera: não é à toa que soa caseiro. Estamos falando de uma Super8 nas cenas com formato de tela reduzido. A máquina das experimentações.

E como experimentação, Porto se dai muitíssimo bem. Como filme de gente grande, um tanto inerte, acadêmico demais. Mas apaixonante como estilo, aqueles momentos de descoberta do que aquele casal é permanecem. E felizmente, não por muito tempo, já que o tempo não importa. Apenas o que é vivido.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-10-25. Porto. Porto (France, 2016). Dirigido por Gabe Klinger. Escrito por Larry Gross, Gabe Klinger. Com Anton Yelchin (Jake Kleeman), Lucie Lucas (Mati Vargnier), Françoise Lebrun (Mother), Paulo Calatré (João Monteiro Oliveira), Chantal Akerman, Florie Auclerc-Vialens (Blanca), Diana de Sousa, Filomena Gigante, Rita Pinheiro. imdb