Pulp Fiction Tempo de Violência

Segundo trabalho de Quentin Tarantino (Cães de Aluguel, Kill Bill), Pulp Fiction é seu filme com o roteiro mais intenso, e talvez um dos melhores representantes do seu gênero no quesito introduzir perigosos criminosos em seu dia-a-dia.

Mas qual é o significado de Pulp Fiction? Ora, o próprio Tarantino explica no início, colocando a descrição literal do dicionário American Heritage após acompanharmos um diálogo de um casal que decide assaltar o restaurante onde estão tomando café-da-manhã:

“A soft, moist, shapeless mass or matter. A magazine or book containing lurid subject matter and being characteristically printed on rough, unfinished paper.” (tradução: Uma massa ou matéria suave, úmida e disforme. Uma revista ou livro contendo assunto escabroso e sendo caracteristicamente impresso em papel áspero, inacabado.)

Note como o significado que procuramos está na segunda posição do dicionário, justamente o que nos remete diretamente ao estilo “Lado B” da produção, que não possui um plot grandioso, mas que ao mesmo tempo consegue imprimir qualidade em cada um dos seus enquadramentos através da estilização ao máximo de sua ideia de extravasar os acontecimentos “escabrosos” que ocorrem na tela.

Note que não há protagonistas humanos, apenas meros coadjuvantes desses acontecimentos e uma maleta. Não podemos dizer que Marcellus Wallace (Ving Rhames) desempenhe o papel principal mesmo que boa parte da história seja parte dos seus planos, já que boa parte de tempo em tela se divide em torno de três personagens: a dupla de assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson) e Butch Coolidge (Bruce Willis), um lutador em fim de carreira que vende sua luta para o mafioso.

No entanto, mesmo eles não desempenham função primordial à narrativa. No fundo, até as cenas de ação são periféricas à história, que prefere focar no que os personagens fazem quando coisas estranhas acontecem. O primeiro diálogo entre Vincent e Jules, a respeito ao período em que o primeiro esteve na Europa e as diferenças culturais com Los Angeles, é sintomático nesse sentido, pois é esse formato que será adotado para apresentar seus personagens, sem grandes tramas ou algo do gênero. São pessoas comuns, ligadas ao crime, mas que merecem aqui uma visão ordinária, quase corriqueira, da vida.

E o que é a vida para essas pessoas? Muito parecida com a de qualquer um de nós: problemas no serviço, tarefas complicadas, a tentação da traição, o inesperado. Não é à toa que o tom casual da narrativa não se esforce sequer em colocar os eventos em ordem cronológica. Se tornaria inútil, pois o que vemos é um estudo de personagens e não um conflito que precisa ser resolvido. Podemos até dizer que há dois conflitos principais: a entrega da maleta misteriosa para o Sr. Wallace e os acontecimentos antes, durante e após a luta de Butch. São determinantes? Eu não diria isso.

E se eu disser que mais fascinante do que esses dois conflitos é toda a sequência, irretocável, da noite de Vincent Vega e Mia Wallace (Uma Thurman), tendo o ápice em uma dança de twist, culminam em uma overdose que pode ser tão bem aplicada a Mia quanto a nós mesmos, imersos em uma realidade tão comum quando extraordinária, banhada de músicas que parecem ter sido feitas para cada cena? Ao mesmo tempo, como explicar que mais intrigante do que a forma com que Jules executa suas vítimas recitando um trecho da Bíblia, que conhece de cor, não se compara à própria psique do sujeito, para quem o significado dessa passagem adquire inúmeras interpretações em sua mente, especialmente após ter testemunhado algo que considera um milagre? Quer algo mais intrigante que isso? Compare toda a história da dupla através das três interpretações que Jules entrega para o espectador no final do filme. O que temos? Nada conclusivo.

No fundo, a montagem do filme não poderia ser feita de outra maneira. Caminhando lado a lado dos seus personagens, Tarantino consegue extrair o mais inusitado que qualquer um conseguiria em um filme de gângsteres: sua alma de pessoas comuns que por mero capricho de acontecimentos “Pulp” estão onde estão. Não importa como chegaram ali, mas entender o que fazem a partir disso é que faz toda a diferença.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-12-23. Pulp Fiction Tempo de Violência. Pulp Fiction (USA, 1994). Dirigido por Quentin Tarantino. Escrito por Quentin Tarantino, Roger Avary, Quentin Tarantino. Com Tim Roth, Amanda Plummer, Laura Lovelace, John Travolta, Samuel L. Jackson, Phil LaMarr, Frank Whaley, Burr Steers, Bruce Willis. imdb