Quando Estou Com Marnie

Mais um dos filmes dos estúdios Ghibli (em que um dos fundadores é Hayao Miyazaki) que já estreou há mais de um ano no Japão e aqui custa a aparecer uma distribuidora decente. Aliás, vamos combinar: não existe distribuidora confiável em solo nacional.

A história de reconexão com a vida de uma garota através da figura misteriosa de uma menina não poderia ter melhores idealizadores. Os detalhes nos traços do desenho, as “mágicas” de movimento, a trilha sonora contemplativa, as expressões dos personagens e, por fim, o roteiro complexo (mas coeso) escrito a seis mãos e baseado no romance de 67 por Joan G. Robinson são todos mecanismos válidos para aumentar a introspecção nessa viagem intimista em busca do que nos torna aptos a sermos seres humanos que desejam viver. Boa parte dessa dúvida da protagonista, Anna, reside em sua incapacidade de viver em sociedade. Mas qual seria outra forma de viver, não é mesmo?

Abraçando mais uma vez o “sobrenatural” (ou a sugestão de) para abordar temas humanos menos visuais, o diretor Hiromasa Yonebayashi (O Mundo dos Pequeninos) realiza uma obra ambiciosa do ponto de vista narrativo, pois deseja contar essa redescoberta da humanidade da pequena Anna em sua viagem para o interior do país através da figura misteriosa de Marnie, que pode ser seu outro “eu”, um fantasma, uma alucinação ou outra coisa. A maior virtude de Quando Estou Com Marnie é justamente não se interessar demais pela resolução desse mistério, mas mantê-lo próximo conforme nossa heroína aos poucos redescobre a magia de viver.

Outra virtude da história é a própria Anna, que apesar de introvertida e com uma autoestima baixa, não é uma vítima indefesa, se tornando irritada e agressiva com as pessoas que a rodeiam. Desse modo, se torna uma figura complexa e mais humana, favorecendo sua própria universalidade. Quem nunca se sentiu só e incompreendido nesse mundo? Quem nunca desejou ter um amigo com quem compartilhar as decepções, as alegrias, e, no caso de Anna, os seus rascunhos?

Com uma conclusão que tenta abraçar o mundo, e sei sai razoavelmente bem, Quando Estou Com Marnie é desses filmes de mistério em que o mistério é usado mais como ferramenta narrativa, mas cuja solução nem sempre irá agradar, ou, nesse caso, não é o mais relevante. Cada um irá se emocionar à sua maneira com as diferentes sugestões de final. E mesmo que não concorde com o desenlace “definitivo”, essa não é uma questão menos importante do que o destino da própria personagem. O filme entender isso já o torna acima da média.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-09-13. Quando Estou Com Marnie. Omoide no Mânî (Japan, 2014). Dirigido por Hiromasa Yonebayashi. Escrito por Joan G. Robinson, Keiko Niwa, Masashi Ando, Hiromasa Yonebayashi, David Freedman. Com Sara Takatsuki, Kasumi Arimura, Nanako Matsushima, Susumu Terajima, Toshie Negishi, Ryôko Moriyama, Kazuko Yoshiyuki, Hitomi Kuroki, Ava Acres. imdb