Que Horas Ela Volta?

“Que Horas Ela Volta” tem a virtude de conseguir se tornar um filme essencial para a discussão contemporânea e ao mesmo tempo se entregar a uma cartilha retrógrada que é usada a cada momento como combustível para uma esquerda brasileira (igualmente retrógrada) com sede de vingança e miopia de caráter.

Deixando de lado toda a sutileza e ironia de um trabalho anterior de Kleber Mendonça Filho que busca estabelecer com muito mais propriedade uma relação entre o passado da sociedade brasileira e o seu presente (estou falando do ótimo O Som ao Redor), “Que Horas Ela Volta” faz justamente o contrário: determina desde o começo de que lado pretende atirar e para onde. Ou melhor dizendo: em quem. Ao pincelar uma classe alta “herdeira de posses” obtusa e absolutamente démodé junto de uma representante clássica dos livros de geografia do MEC da “classe trabalhadora opressora” na pele da empregada Val (Regina Casé, em um marco em sua cinematografia), o trabalho da diretora/roteirista Anna Muylaert subverte a realidade em sua volta sugando da já citada “visão intelectual” a respeito de uma suposta sociedade brasileira, e irônica ou propositadamente acaba criando uma cartilha audio-visual que levaria às lágrimas Sergei M. Eisenstein, o editor/diretor soviético responsável por boa parte da propaganda do partido na época da revolução russa.

Contando a história da vinda para São Paulo da filha de Val para prestar o vestibular, os símbolos que escorrem pelo filme quase gritam para serem reconhecidos. O pote de sorvete, o jogo de xícaras brega com o padrão de cores “tudo misturado”, a relação arquitetura com o molde social que ele representa. O quarto de hóspedes. A piscina. A filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), é uma jovem normal com ambições como todo adolescente. Influenciada por um professor de história (esse detalhe cheira quase como uma isca), aparentemente sua “rebeldia” é o ponto forte do filme. Porém, menos para o público, mais para a simpática, subserviente e domesticada Val, uma mulher que viveu, pela idade e pelo contexto de sua vinda para o Sudeste, época que gostaria de esquecer, mas que mantém fresca em sua memória talvez como lembrete de por que passa por tanta “humilhação”. Menos para o público porque, francamente, “rebeldia” e “humilhação” estão inteiramente depositados no ponto de vista das únicas personagens multidimensionais, e por isso mesmo, fascinantes: Jéssica e Val.

Val é uma empregada secular que acompanha a família há tanto tempo que trata o filho do casal, Fabinho (Michel Joelsas), como seu próprio (e a recíproca é verdadeira, já que a mãe da classe média alta é devidamente pintada como distante e irritante). Exagerada em seus costumes e sua educação, a performance de Regina Casé cria uma Val teimosa, em certo ponto irritante, mas ainda assim a mais engraçada e espirituosa da casa. Seu sotaque não-perdido graças à convivência com outras empregadas (e nordestinos) que povoam a capital econômica do país torna tudo mais bucólico, mas o filme nunca nos deixa esquecer de que, por algum motivo inerte, tudo aquilo é trágico. Será, mesmo?

Então, vejamos: um drama familiar existe nessa família no nordeste, e possivelmente a pobreza faz com que Val se mude para a cidade grande e consiga um emprego que lhe permita sustentar a filha à distância. O medo de perder essa capacidade é o que a faz temer qualquer possível destrato com seus patrões, o que os acaba acostumando com essa forma de tratamento. O que vemos no filme são pelo menos dez anos de um costume solidificado pela repetição. A consequência é essa distância cultura entre a mãe e a filha, o que é natural e saudável. No entanto, a filha não reconhece os sacrifícios da mãe, e enxerga na relação contratual entre Val e seus patrões uma relação de exploração.

E acreditando piamente em uma versão pseudo-trágica da história, o terceiro e catártico ato resolve escancarar de vez o ódio nutrido pelos idealizadores de “Que Horas Ela Volta” (possivelmente encabeçado por Marilena de Souza Chaui) e através disso revela-se unidimensional ao bolar uma “solução” óbvia e nem um pouco impactante. Conseguindo tornar irritante até um momento simbólico de Regina Casé na piscina, “Que Horas Ela Volta” é a síntese de tudo o que está de errado na cabeça dessas pessoas, e talvez nos mesmos moldes de “O Nascimento de uma Nação”, mostre como o Cinema como arte – e, portanto, belo enquanto imoral – pode ser triste e bilhante ao mesmo tempo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-09-15 imdb