Rede de Intrigas

Dec 27, 2015

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Sidney Lumet é um gênio em pegar questões delicadas e profundas da nossa sociedade e inseri-las em histórias corriqueiras ou com uma roupagem 100% pessoal. É assim com os clássicos Um Dia de Cão e Serpico, e não seria diferente quando o tema agora é a TV como ferramenta de divulgação de notícias. Ou pelo menos essa era a ideia original.

Apesar da história de Network girar em torno da busca do poder, que no caso é mais audiência, que se traduz em mais dinheiro e influência, o momento mais icônico para mim é quando uma família sai para a janela e observa que todos seus vizinhos começam a sair e gritar a frase de um âncora que se tornou uma espécie de profeta, ou voz do povo, depois que anunciou que iria se matar em frente às câmeras após ser demitido.

Esse momento é icônico porque ele é um dos poucos que conseguem resumir de onde vem o combustível para permitir que um canal de notícias vire um show pseudo-esotérico com toques de auto-ajuda para uma nação em crise econômica e de identidade: sua audiência. Network pode se travestir de jogo de poder de corporações cada vez maiores, e faz isso muito bem, mas não pode negar que esse poder emana de quem possui o controle dos canais na mão.

Do jeito que as coisas são colocadas, porém, essa audiência não mudou muito de quando eram babuínos viajando pelo deserto, confiando sua liderança a homens que de diziam profetas que conseguiam falar com o próprio deus e arrancar a “verdade final”. Em ambos os casos, se você avança demais nessa ilusão, ou se há motivos suficientes da população para que ela se mantenha, até mesmo quando o profeta tenta se desmascarar, a ele será negado a fuga para a realidade.

Além dessas questões universais, Network vai além, e através de uma história de traição discute com propriedade uma filosofia de valores em contraponto com a vida fácil e irreal da TV. Tudo isso de maneira acessível, ou quase, em uma narrativa que funciona tão bem em tantos níveis que parece um pequeno milagre de coesão e economia. Nenhuma cena no filme é descartável.

Porém, talvez o mais fascinante do filme é que ele indica apenas o começo de uma mudança radical em como é feita notícia. Hoje vivemos no inferno anunciado das propagandas disfarçadas de conteúdo, e da banalização da realidade ao nível de novela. Felizmente, a internet surgiu para nos salvar do quarto poder. Quiçá também dos três primeiros.

Wanderley Caloni, 2015-12-27. Rede de Intrigas. Network (USA, 1976). Dirigido por Sidney Lumet. Escrito por Paddy Chayefsky. Com Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch, Robert Duvall, Wesley Addy, Ned Beatty, Arthur Burghardt, Bill Burrows, John Carpenter. IMDB.