Refúgio

Uma comédia de situação que analisa de maneira divertida vários assuntos contemporâneos. Como estarmos entulhados de penduricalhos tecnológicos, e isso fazer parte da nossa vida de maneira tão íntima, que quando vamos nos lançar em uma aventura pela natureza selvagem… não podemos nos esquecer do protetor acústico de mosquitos.

Porém, o filme vai mais além. Apresentando Michel (Bruno Podalydès, que dirige e escreve o filme), um senhor de meia-idade que trabalha com computação gráfica no meio de jovenzinhos focados em impressionar qualquer um pelo Google, dele evoca o saudosismo e o desejo mais interno de buscar o verdadeiro sonho de infância, seja lá qual for. Apaixonado pelos aviões da entrega postal que atravessava a cordilheira, Michel resolve a partir de um palíndromo – uma palavra que é igual lida ao contrário – comprar um “kayak” e correr um rio.

Sim, o filme faz algumas voltas, e evoca os poderes do “indie” (filmes independentes que seguem uma cartilha), mas ele vai além, construindo um universo onde a forma é usada para atingir a mensagem, e onde a mensagem são as vicissitudes do ser humano em busca de si mesmo, às suas origens. Tal qual um palíndromo, quando estamos velhos buscamos o espírito de aventura de quanto jovens (e quando jovens, a maturidade dos mais velhos). A busca na terceira parte da vida remete à primeira, só que com alguns detalhes mais chatos.

Há personagens engraçados, estereotipados mas agradáveis. A viúva que toca o negócio do finado marido, a novinha que ficou apaixonada por um músico sensível, o segurança de shopping que, ainda jovem, tem saudades do tempo que andava de caiaque.

Refúgio é uma busca incessante por algo que está dentro de nós mesmos. É uma comédia escrachada também, mas bem sutil. O que mais surpreende é sua forma lúdica e simples de tratar questões que vão do mais dramático ao mais catártico. Todos nós merecemos um refúgio assim de vez em quando.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-09-30 imdb