Retratos de uma Obsessão

Entre tantas coisas que poderiam ser destacadas da performance de Robin Williams como Seymour Parrish, um funcionário de uma hoje extinta reveladora de fotos, o que permanece ao final de Retratos de uma Obsessão são os inúmeros filtros que parecem cobrir sua vida de uma aura tão poética quanto trágica. Esse sentimentos ecoam principalmente através das cores, presentes nas fotos e nas vidas das pessoa para quem trabalha, mas que a ele são negadas. Quer uso mais metafórico da fotografia no Cinema do que a própria fotografia sendo o tema principal?

Dos fregueses de costume, uma família em específico é a “obsessão” de Parrish por anos, e sua dedicação em manter a imagem dessa família no decorrer dos anos é ao mesmo tempo tocante e doentio. Nesse sentido, as expressões de um Williams bem mais contido consegue de maneira eficaz a tarefa de nos manter presos a cada passo seu tentando se aproximar de completos estranhos. Da mesma forma, conforme a história começa a se misturar com seus desejos ocultos de pertencer à família, os abusos das cores azul e laranja começam a fazer sentido nesse mundo pálido.

Já o trabalho do diretor/roteirista Mark Romanek constrói um thriller que oscila bem entre o clássico e a referência. Em determinado momento, um episódio de Os Simpsons mostra uma piada onde é usado o toque de O Cabo do Medo (Scorsese, 1991). Esse toque, além de uma brincadeira inocente, revela os objetivos do filme enquanto metalinguagem.

Ainda assim, com todas as desculpas possíveis, é difícil ignorar que o diretor de fotografia Jeff Cronenweth não tenha exagerado um pouco. Mas só um pouco. Todo o resto é útil para a construção do personagem e das situações. A medida do exagero é quando todas essas cores insistem em nos jogar para fora do filme. Ou talvez o ritmo às vezes descompassado, que gera um efeito episódico sem necessidade.

De qualquer forma, nada nos prepara para o final anti-climático, revelador e elegante em sua sutileza (e gritante em seu diálogo final, justo em um filme que na maior parte do tempo não precisa disso). Há algo de inocente nesse thriller enquanto thriller, mas algo de maravilhoso sendo construído com cores e enquadramentos enquanto exercício de estilo. Uma pena que ambos não consigam coexistir com total harmonia.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-07-21. Retratos de uma Obsessão. One Hour Photo (USA, 2002). Dirigido por Mark Romanek. Escrito por Mark Romanek. Com Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan, Dylan Smith, Erin Daniels, Paul Hansen Kim, Lee Garlington, Gary Cole, Marion Calvert. imdb