Rick and Morty
Wanderley Caloni, 2017-01-01

Essa é uma animação adulta até para muitos adultos. Ele discute temas familiares da maneira mais crua, usando artifícios de sci-fi para tornar tudo mais amenizado ou potencializado. Quando a história é das consequências de um desejo egoísta o roteiro acaba com toda aquela realidade, transformando os humanos em monstros. Quando quer discutir feminismo, adentra em um mundo onde mulheres usam os homens apenas para o que eles servem: aparelhos de esperma (aparentemente a genialidade feminina nesse planeta não conseguiu realizar inseminações artificiais). Cada episódio de 20 minutos revela uma faceta bruta da natureza humana, mostrando como somos primitivos em alguns detalhes. Cerca de 99,9%.

Seus heróis são Rick, um cientista brilhante e alcoólatra que carrega seu neto Morty para aventuras em planetas, universos e tempos diferentes. Criado por Justin Roiland, que dubla tanto Rick quanto Morty, seus personagens são quase que a caracterização freudiana do ego e id. Enquanto Rick segue seus próprios propósitos, parecendo que ele vive no meio de babuínos, o único motivo que o parece arrastar Morty para essas aventuras é o fator genético.

Como diversão inconseqüente, sinto lhe informar, mas esta não é uma série para isso. Existem bons exemplares menos afeitos a espremer a esperança humana. O humor de Rick e Morty pode ser quase caracterizado como britânico, o que é um ótimo sinal. Sua música tema flerta com Doctor Who, algo que desconfio que não seja acidental. E, claro, as vantagens de uma animação, onde pode virtualmente tudo, e que mesmo assim cria tensão.

Parte dessa tensão provém da ágil edição da dupla Lee Harting e Ken MacKenzie, que não deixam o espectador bocejar. A outra parte provém de uma trilha sonora surpreendentemente iluminada de Ryan Elder, resgatando mais uma vez essa tradição que as grandes animações possuem (desde Pica-Pau e Tom e Jerry) de elevar a arte dos desenhistas em arte audiovisual.

Mas, voltando aos personagens. Repare como os diálogos entre Rick e Morty soam artificiais, quase monólogos. Há vários momentos em que diferentes sequências de frases são encadeadas por Rick, dando a nítida impressão que Justin Roiland parece estar desenvolvendo o roteiro exatamente naquele momento, referenciando (talvez acidentalmente) os diálogos neo-realistas e absurdamente amadores e bem feitos de South Park. O universo paralelo onde essa animação se passa possui um furo: deixou entrar um dublador/criador de situações absurdas em que pessoas do planeta Terra acabam assistindo. Uma ótima sacada, aliás.

★★★★☆ Rick and Morty. USA. 2013. Direção: Pete Michels, Bryan Newton, John Rice, Stephen Sandoval, Wesley Archer, Dominic Polcino, Jeff Myers, Juan Jose Meza-Leon. Roteiro: Dan Harmon, Justin Roiland, Eric Acosta, Tom Kauffman, Wade Randolph, Mike McMahan, Matt Roller, Brian Wysol, David Phillips. Elenco: Justin Roiland (Rick / ...), Chris Parnell (Jerry / ...), Spencer Grammer (Summer / ...), Sarah Chalke (Beth / ...). Edição: Lee Harting, Ken MacKenzie. Trilha Sonora: Ryan Elder. Duração: 22::(approx.). Animation. #netflix